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Wednesday, March 18, 2020

O dia que parei, em ti

Um dia parei para te olhar nos olhos e no mesmo dia amei-te.
De um amar enfaiscado que não arde.
No Dia seguinte, amaste me Também.
Mergulhamos os dois no profundo nada por horas.
Quando te perdi de vista, o estômago chorou meia tarde.
Azedo. Dorido. Verão nas estranhas.
Ao terceiro dia, ainda amando-te, deixei-te ir dentro de mim para parte incerta e chorei.
Permiti que a imagem de ti flutuasse em mim só mais um dia, para fixar a sensação da tua pele em Mim.
E agora vives aqui. Voas cá dentro como um pássaro louco mas invadido de vida.
E trazes para mim de volta a vida que eu precisava viver.

Sunday, February 16, 2020

Chegaste.

Chegaste. Amaste. Puro. 
Certo, sem Dúvidas, ainda que hesitante.
Amei-te por isso
Durante instantes eternos.
Nesses inesperados momentos
fomos seres dissolvidos
em Lençóis inquietos.
Ficamos presos na espera do agora
contudo livres para viver sem horas, sem pressão, talvez sem retorno.
Assim é o fim do nosso agora, 
que possivelmente não terá amanhã,
mas será constantemente possível no sempre.

Friday, February 17, 2017

Vulcão

No centro da extrema paz
desemocionada
desencadeia-se o arrepio.
O vulcão acorda, sem querer.
O querer não se reconhece,
não espera, não se deixa ser comandado.
E a emoção salta
ocupando a ribalta da alma,
que se queria em paz.
Como? Porquê? Por nada?
Um pequeno caos aterra.
Estremecem pedaços de pele.
Cada entranha do pedaço de carne andante que sou
entra em desassossego.
O vulnerável torna-se eu,
o eu torna-se vulcão.


Wednesday, May 07, 2014

Truth Lies ou "You want the truth??? You Can't Handle the Truth"

Não consegui decidir por um título e, assim, ficaram os dois.

A VERDADE e a MENTIRA têm aparecido estes dias nas conversações.

E inevitavelmente estamos cheios delas à nossa volta, quer queiramos quer não. Obviamente não há uma verdade, há muitas, construções pessoais e subjetivas à volta de um assunto ou situação.

Mesmo sabendo disso, há situações que são factuais, e as pessoas continuam a omitir (ou mentir, não vamos por esse caminho), porque não querem magoar outros, porque acham que não têm de partilhar a sua vida com ninguém, porque não lhes apetece, ou porque, por vezes, é mais fácil manipular e omitir para poupar explicações.

O facto é que, atualmente, torna-se difícil omitir e mentir. Além de extremamente incómodo, na minha opinião.

Uma foto no facebook desfaz todas as mentiras e omissões que se tentou fazer "para bem de alguém", argumentam os manipuladores. OU então, esqueceram-se estrategicamente de comentar.

Mas a verdade é que, atualmente tudo é muito mais complexo do que isso. O mundo é cada vez menos binário e a preto e branco. Os cinzentos reinam.

Até que ponto se pode exigir verdade?

Como sempre, as respostas todas estão na minha cinefilia.

A verdade da Mentira (No Original TRUE LIESver ficha IMDB aqui), um trocadilho engraçado, é o título de um dos meus filmes preferidos de sempre. Uma comédia do J. Cameron, acessa, divertida, com um argumento fabuloso e com uma das cenas de strip mais famosas de sempre, com a J.Lee Curtis. Até o Arnaldo Schw. consegue ser sexy!

A tradução ideal seria "a verdade mente". Dá que pensar?

A outra obra prima, A FEW GOOD MEN, numa tradução estranha (como já é costume!) para UMA QUESTÃO de HONRA (Ficha IMBD), contém em si um dos momentos mais emocionantes do cinema, com o diálogo fantastico ""You want the truth??? You Can't Handle the Truth""

E a verdade, para mim, é assim. Ninguém consegue lidar com a verdade.

A verdade é que muita gente prefere a mentira. Prefere saber aos poucos ou não saber. 

E sim, já perguntei a várias pessoas várias coisas (numa investigação informal sem qualquer método cientifico) e muita gente me respondeu "preferia não saber".

POis, o problema é que eu prefiro sempre saber. Sim, sem excepção. 

The Truth shall set you free.

Sim, a verdade é libertadora. Pode doer muito, e dói, pode nos "comer" a cabeça muito tempo e nos pôr perdidos da vida, mas acaba por ser libertadora.

Há uns tempos comecei a usar um pouco da Radical Honesty.

(http://www.radicalhonesty.com/)

Houve pessoas que acabaram por confessar que eu era um pouco seca, cruel e demasiado direta. Pois, eu compreendo. É difícil lidar com a verdade.

Recebê-la é difícil, mas DIZER a verdade também o é...no início, pelo menos. Depois passa a ser simples, libertador.

Por isso, talvez no meio disto tudo o facebook e outros meios de divulgação sejam meios óptimos para divulgar a verdade. Meios camuflados e covardes, mas de alguma forma verdadeiros.

Conheço uma pessoa que diz conseguir aferir a personalidade toda de alguém só vendo a página do facebook dessa pessoa! Claro que é uma estupidez, mas não deixa de ter a sua piada. Será que a nossa página pessoal reflete a verdade sobre nós? OU a mentira? Ou zonas cinzentas!

Quando o fabuloso Jack Nicholson diz "You want the truth??? You Can't Handle the Truth", penso que ele tem mesmo muita razão.

O ser humano como está, já tem dificuldade em lidar com a verdade. 
E mesmo os que dizem que são a favor dela, que dizem sempre tudo, que partilham tudo, deixam migalhas pelo meio, incontadas, que se somam uma por uma para desvelar uma mentira, pequena ou grande.

A partir de quando é que começamos a ter receio da verdade? É assim tão assustadora?



Saturday, April 17, 2010

Portal de Gestão

Tenho descurado um pouco o meu blog, em prol da escrita de artigos para o Portal de Gestão! (http://www.portal-gestao.com/)

Está a ser uma experiência fantástica e a motivação fala mais alto.

No mês de Março, dediquei todas as publicações ao tema da Etiqueta nos Negócios, a quem chamei Etiqueta Organizacional.

Assim, aqui estão os links para os artigos escritos por mim no mês de MARÇO!


Etiqueta Organizacional


Criar Uma primeira Impressão Forte

Vestir é comunicar


Como Preparar Negócios à Mesa


Convidar clientes e parceiros para uma refeição de negócios



Saiba manter a distância interpessoal



Espero que visitem o Portal, que além dos meus artigos, tem outros artigos e discussões importantes para todos nós, como profissionais e como cidadãos!

Em breve, colocarei os do mês de Abril.

Espero que gostem!

Abraço a todos/as!

Thursday, February 25, 2010

A Escrita e o Haiku

A minha escrita tem sido cada vez mais adiada mas não esquecida. cada vez que leio algo, sinto-me menos capaz de escrever. Já há tantos escritores fantasticos, que perco imediatamente a vontade. Talvez seja baixa auto-estima ou auto-conceito de escritora.

No entanto, em arrumações, encontrei dois "haiku" escritos por mim para o www.escreva.com. Para saber mais sobre Haiku, pode-se visitar esse mesmo site aqui

Pode parecer facil escrever haiku, mas não é. Tentem.

Haiku #1

Ser, no agora
viver no aqui, largar
o pré e o pós.

Haiku #2

Olha, sem pudor,
o sopro de paz que flui
por todo o Eu

Patrícia Araújo (2005)

Monday, March 02, 2009

Poesia

Ocasionalmente, volto ao meu verdadeiro ser. Poemas escritos recentemente, no passado e na semana passada…


Quebras-me

Quebras-me e deixas-me aqui estendida aos pedaços.
Q quebras-me sem sentires, sem saberes,
Quebras os laços que podiam existir.
Parece que te ouço rir quando me quebras
sem que te apercebas. Eu viro costas e
faço de conta que não ouço os teus passos,
nem a tua voz.
E deixo que me quebres, uma e outra vez
Porque me agarro ao nós que tu já não crês.
Reato-me e coso-me por dentro
E engulo em seco.
Volto amanhã para me quebrares como se
Me degolasses num escuro beco.

Em 2008


Hesitante

O passeio do receio é um caminho
Que faço hesitando,
Respirando a medo a cada dia,
Contendo um pouco mais de vida dentro de mim.
Guardo-me para mim, escondida
Para ninguém ver.
O receio de que o passeio mostre aos outros
Como sou consome-me a cada hora.
Na pressa da vida receio a demora, a perda, o tempo
Que se desgasta em minudências.
Passeio pela vida com medos e receios
Sem dizer, sem mostrar, sem os querer
Mas sem os negar.
Contenho em mim a verdadeira
Essência bem escondida e fico feliz
Por saber que ela lá está, e no entanto
Receio embarcar na busca por ela.
Então deixo-a estar lá,
Bem guardada dentro de mim, atrás do receio,
Enquanto passeio pela vida que vou vivendo hesitando.

Fevereiro de 2009


Leva-me

Leva-me para esses caminhos, esses do falado amor
Da intimidade, do afecto,
E convence-me a sair desta via do desassossego,
Do pensar, do alerta pessimista.
Se me conseguires levar a bem, devo ficar por lá.
Leva-me para longe destes pensamentos daninhos
Que são diabinhos que me corroem
E convence-me que amar é mais.
Leva-me e diz-me que não há volta e
Que a revolta que trago comigo
Desaparece por magia.
Mostra-me a tua via, a tua estrada,
Conduz-me de mão dada e eu só prometo deixar-me levar.
Depois, apaga os caminhos antigos,
Dá os meus diabinhos como perdidos
E mostra-me a tua auto-estrada de amar.

Em 2008

Uma história infantil, para crianças e adultóides

O Caracol Medroso-Uma história infantil, para crianças e adultóides
Era uma vez um caracol, que todos os dias saía do seu esconderijo e punha os corninhos ao sol. Este caracol não era um caracol qualquer, ele conseguia ver o que outros não queriam ver.

Ele punha os corninhos ao sol, e olhava, olhava, olhava tudo à sua volta.
As árvores, os rios, as folhas, os assobios do vento e dos humanos naqueles dias em que os humanos estranhamente apareciam para sentar-se na floresta, todos juntos, e riam.

Ele observava as nuvens, as pedras, os animais e os outros caracóis como ele, a colocar os corninhos ao sol.

Certo dia, viu um caracol seu amigo, morrer.

Ninguém sabia bem o que era “morrer” , mas nunca mais ninguém via os tais amigos caracóis que “morriam”.

Uns diziam que ia para o céu, outros diziam que ia para outra terra, para junto de outros caracóis que eram anjos., para junto do Deus dos caracóis.

O caracol começou a ter medo. Até aí, nunca soube o que era o medo, e mais nenhum caracol o percebia! “Vem para o sol, primo caracol”, diziam os outros, mas ele tinha medo, muito medo.

Medo das árvores porque podiam cair, medo das folhas que podiam esconder um buraco no chão, medo dos outros animais ou dos humanos que eram muito grandes, medo do escuro e até medo do sol!

O caracol passava o dia escondido com medo de algo desconhecido, com medo de tudo à sua volta, porque nada era certo, tudo poderia correr mal, e ele podia “morrer”. O seu coraçãozinho batia muito forte, parecia que ia saltar para fora do peito por causa daquele medo que ele sentia em todos os momentos.

Os outros caracóis vieram dizer que ele estava doente, e que isso não era vida de caracol.
Mas o caracol acreditava que qualquer coisa lhe ia acontecer. O medo crescia e crescia dentro dele, mas ninguém conseguia perceber. Até que um dia o caracol ficou paralisado, o medo já não o deixava mexer-se.

Sem se conseguir mexer ou fazer fosse o que fosse, nem os pequenos corninhos conseguia mover para que sentisse o sol a aquecer.
Os outros caracóis iam para o sol, de folha em folha, casavam, tinham bebes caracóis, iam à escola, e um dia desapareciam.

Mas o nosso caracol também estava a morrer, só que no mesmo lugar, em vez de viver a vida de caracol que era suposto viver.

Até que um dia, pelo meio de um raio de sol, viu algo a fazer sombra, a vir em direcção a si, uma coisa enorme, talvez um pé humano, talvez outra coisa grande e que parecia pesada, que vinha de cima, e só a poucos centímetros de distância é que o caracol deixou que o medo se transformasse em coragem e arrastou-se a correr, a correr como corre um 
caracol...muito devagar.

Desde esse dia o caracol teve todos os dias medo. Era mais vivido do que os outros caracóis que simplesmente viviam. Ele vivia e sentia o medo, percebia-o, deixava que o medo se instalasse e, depois, respirava fundo transformava todo esse medo em coragem, e fazia o que um caracol tinha de fazer: viver cada dia, correndo as folhas, ouvindo os rios, aquecendo ao sol.

(Como psicóloga, escrevi esta história com intuito educacional. Pode ser usada para ajudar crianças a lidar com o medo, não o perdendo, mas transformando-o em coragem e noutras intervenções).

P.S. Respeite os direitos de autor. Para Citar esta história, utilize a seguinte referência bibliográfica:
Araújo, P.(2008). O Caracol Medroso:Uma história infantil, para crianças e adultóides. Acedido em  (COLOCAR AQUI MÊS e ano da consulta) e Disponível em http://pseudotudo.blogspot.com/2009/03/uma-historia-infantil-para-criancas-e.html.

Sunday, November 09, 2008

O Saiote

É domingo e chove aqui, no Lubango. Está frio e nublado. Só temos uma solução: trabalhar. Sem qualquer entretenimento, resta conversar com os colegas e agarrarmo-nos aos portáteis...

Uma ultima short-story, também escrita em Lisboa, em 2005.

O saiote

Aos cinco anos gostava de ver a minha avó arranjar-se. Puxava bruscamente pelas roupas até se encaixarem nas suas formas redondas que herdei. Havia duas peças que me fascinavam: A “combinação” e o “saiote” - com passar dos anos e modas deixou de se usar a primeira. Minha mãe era demasiado magra e a roupa deslizava pelo corpo acima ou abaixo sem roçadura, daí que gostasse mais de observar a minha avó.
O encantamento do saiote ficou guardado mas presente ao destes anos, pois trabalhando em prêt-à-porter, esta era uma peça que vendia bem, principalmente para senhoras de 6 ou 7 décadas. Infelizmente nunca usei um, mas fascinavam-me as mil rendas, as cores suaves e o nylon (que em catraia chamava seda) e a volúpia que me parecia implícita naquele acto tão feminino de vestir o saiote, “enfiá-lo”, como se dizia.
Com a faculdade, o casamento e a carreira fui esquecendo esse pormenor meu, esse fetiche, essa curiosidade.
Um dia, pediram-me que escrevesse um conto “romântico”, disseram, o “Romeu e Julieta” das short-stories e, logo, achei que era demasiado sintética e pragmática para sobrevoar esse ceús românticos, onde deambulam as almas gémeas. Tentei, mas nada. Se parecia sair algo era seco, desprovido de emoção, não eram mais que descrições de actos. Sentia a ligeira sensação de derrota no corpo cozido no vapor de Agosto. Numa janela de 2.º andar de Lisboa tentei captar a paisagem para cenário do conto. Todavia, a caneta emperrava após um par de frases. Foi então que, ao fim de décadas, pareceu-me ver o saiote de uma senhora a dar a dar e a deixar-se entrever pela racha da saia castanha escura.
Saí sem pensar. Entrei no metro e segui para o Chiado onde sabia que encontraria lojas do hoje chamado “comércio tradicional”. Não sei bem para que queria o saiote: uso pouquíssimas saias, muitas com forro e adoro calças. Os saiotes devem ter sido pensados para peças feitas na costureira que, sem forro, seriam por certo incómodas.
Finalmente, numa loja com cheiro a mofo e letras douradas, permaneço sob o olhar admiradíssimo de um vendedor na ternura dos quarenta. Deseja rosa-bebé, azul-bébé ou Branco? Porque não há branco bebé?, pensei, Sim, pode ser o branco, por favor. Ah, Tamanho M. Sentia-me emocionada como se, apesar dos meus quase trinta anos, só agora me sentisse verdadeiramente mulher. Tenho o 38, o 40 e o 42, menina...isso de L’s e M’s não é p’ros saiotes. O 38 serve. Vi-o tirar aquela maravilha de dentro da caixa comprida acinzentada com letras caligráficas; estendeu-mo no balcão de madeira –picada pelo bicho- e perguntou-me se queria experimentar. Olhei-o como se o visse com os olhos de 5 anos, a escalar o corpo curvado da mãe da minha mãe. Levo este, quanto é?, 7 euros. Vim contente como uma menina que cumpriu o recado que lhe foi pedido, sabendo que terá doces à espera.
Chegada a casa atirei tudo para a cama e tirei as calças. Ao espelho, repeti então o célebre gesto, empinando-me como uma avestruz. Relembrei as coxas à “moda antiga” –que agora as mulheres querem-se a direito – e compreendi a sensualidade do roliço cilíndrico. Vesti uma saia pela cabeça que deslizou pelo saiote e corri o fecho écler. Narcísica, olhei no fundo dos meus olhos e tirei a roupa para repetir o ritual. Em dez minutos tinha história de paixões, hotéis, traições e beijos ardentes.
Cada vez que “enfio” o saiote, a “seda” chama pela minha feminilidade, e esqueço as “derrotas” do dia-a-dia, as dietas, a celulite, as calorias, as olheiras e tudo o que nos faz sofrer neste século XXI e consigo, enfim, reviver a doce e franca sensação de ser mulher.

A curiosidade não matou a gata

Mais uma short-story, mais arrumações...

A curiosidade não matou a gata (Lisboa, 2005)

"Truz, truz, truz”, seguido de “Miau, miau, miau” foram as últimas palavras que ouvi naquela noite. A seguir, ouvi o ranger da porta e uns gemidos estranhos. Confesso que sou pessoa não muito curiosa, ou se calhar não era e com este episódio passei a ser, mas aquele bater na porta às 4h30 da manhã pareceu-me suspeito.
Talvez seja o meu instinto de detective estivesse adormecido e tivesse despertado agora, não sei bem porquê.
O gato, ou gata, da vizinha de cima – a Madalena – raramente miava e, ficou desde logo combinado nas reuniões do condomínio que só se podia ter animais que não fizessem barulho, pois as paredes tinham má insonorização e estavam lá basicamente para não nos vermos uns aos outros a fazer coisas íntimas.
Os vizinhos desde prédio não têm intimidades: Três andares e cinco apartamentos (o rés do chão é só um), todos sabem os nomes uns dos outros e algumas profissões, e encontramo-nos todos uma vez por mês – contra a vontade de todos – para as tais reuniões.
Naquela noite fiquei deveras intrigada com aquele bater à porta: Há dias em que não
queremos saber de nada do que está à nossa volta e há dias que subordinaríamos tudo e todos para saber uma estupidez que nos mói a tola.
Vesti um robe e sorrateira comecei a subir as escadas para o 2.º esquerdo - eu moro no 1.º esquerdo. Passado dois ou 3 degraus tentei pensar como um detective ou um investigador qualquer, Se alguém me apanha tenho de ter uma explicação para dar de imediato senão ficarei mal!, e assim, voltei para casa e sentei-me no sofá em busca da explicação fidedigna, Café, açúcar, sal, está fora de questão pois não é algo que se precise às quatro da manhã; Dizer que ouvi um barulho estranho, sim, é isso, pensei, demonstra preocupação, vou franzindo o olhar e dirigindo o ouvido para a porta e se desconfiar que alguém está a dirigir-se à porta toco logo à campainha e pergunto, Está tudo bem? Desculpe Madalena, mas fiquei preocupada, e pronto, parece ser uma boa frase.
De novo, manhosa, subi até à porta dela e ouvi os gemidos, cada vez mais estranhos, a gata miava também de vez em quando o que mostrava que algo não era normal. Estava já o meu dedo na campaínha quando ouvi a Madalena dizer Força Agora, Força!, e regelei. Desci escada a escada com consciência plena que estava a invadir seriamente a privacidade de alguém. Corri para o sofã, encolhi-me e aconcheguei-me no robe e tentei dormir. Como fui capaz?, pensava.
De manhã, o dia começou chuvoso e os gemidos já não existiam. Era Domingo e a curiosidade devorava-me, consumia-me por dentro como um vício. Controlei-me, ainda eram onze horas da manhã e talvez ninguém gostasse de ser incomodado tão cedo. Chegaram umas pessoas barulhentas a comentar coisas alegremente, entre risinhos, subiram até ao 2.º esquerdo e “Bling, blong”, “Onde estão eles, Madalena? Oh, que giros, meu deus, que lindos! Eu quero um!”. Onde estão eles? Quero um?, não percebia nada. Outras pessoas felizes chegaram, “Então, aqui há gatos...!?”
Tinha-me deixado levar por deduções erradas: A gata tinha dado à luz. Enrolei-me de novo no meu robe a ver a chuva e a tentar voltar à pessoa não curiosa que era dantes.

"Profissão, Gestor de Espaço Automóvel

Sem grandes entretenimentos, e com necessidade de consultar bastante material em CD que trouxe para Angola, encontro uma série de escritos não publicados.
Decido publicá-los agora, enquanto aguardo inspiração para novas escritas cá...

Um abraço...

Uma short-story (Lisboa, 2005)

"Profissão, Gestor de Espaço Automóvel


Baloiçava o braço e repetia alto, com voz rígida e segura, “Eu sou profissional, va’mo lá q’ isto é sempre a andar! Sempre!”, todos os dias que eu lá passava.
Felizmente, não tenho carro, não tenho vontade de ter e adoro a chance de viajar ao “centro da terra”, cada vez que entro no metro: aquela escuridão, a tristeza das caras, as paredes sujas da combustão das “naves”, a rapidez com que as pessoas entram para a “nave”, enfim, adorável rotina de um solicitador novato a reviver Júlio Verne.
Um dia desta semana, trouxe o carro da Marina – a minha mais-que-tudo– nem sei bem porquê e tive de passar pela febre da arrumação: o parque é caro, aqui é faixa amarela, ali é garagem, acolá é privativo, até que, vem o arrumador na minha direcção e, educadamente digo “Você é o arrumador daqui?” – má ideia. As pessoas constroem nas suas cabeças as generalizações que lhes convem e, neste caso, este arrumador correspondia ao meu estereótipo, mas não gostou da terminologia e, com um ar pouco afável e imperioso disparou “Sou Gestor do Espaço Automóvel”, realmente só lhe faltava um fato e pouco mais para Gestor, porque a atitude estava lá toda, “Desculpe”, disse eu, tentando ganhar a causa, “Precisava de um lugar e pensei...”, “Sabe como diz o provérbio?”, colocou um ar sarcástico,“A pensar morreu um burro”. Sou pessoa calma, demais até e agora compreendia os desacatos que ocorriam, ocasionalmente, entre os “Gestores do Espaço Automóvel” e os donos das viaturas, “Já fui Gestor de outras coisas, mas isso agora não interessa nada, como diz a outra” – até tinha receio de interromper a divagação; Disse-lhe com ar indagador “Ai é? E então como é que...?”, “Pois, já se sabe, a vida dá muitas voltas; Aqui, perde-se um pouco da dignidade, mas trabalha-se honestamente, sem jogos sujos e ganha-se mais do que nos edifícios bonitos, com elevador e escritórios modernos”, olhou para cima enquanto respirou bem fundo.
Tinha acordado num dia reflexivo, predisposto para uma experiência surreal e, por isso, fiquei cativo naquele olhar por três segundos – que na correria urbana é uma eternidade.
Apontou-me um lugar e estacionei, azelha como quem já não conduz há meses. Fez sinais e gritou instruções e depois abandonou-me para ir atender outro cliente.
Ao passar, vi que estava a corrigir uma senhora que o tinha chamado de arrumador. Dei-lhe uma moeda de um euro, disse obrigada e desejei bom trabalho, “Vê, um euro em – olha para o relógio– 3,7 minutos, significa cerca de–pausa de dois segundos– 16 euros à hora, 112 euros ao fim de 7 horas e pouco mais de –pausa de três segundos– cem contos por semana!”, fiquei à espera da conta mensal, de boca semi aberta e expressão suspensa, “Que foi homem?Já ‘tá! Adeusinho.”, “Errr...pensei que ia acabar a conta e dar o valor mensal!”, disparou uma gargalhada com pitada de sarcasmo e paternalismo, “Isto aqui é como nos States...”, franzi o sobrolho e fiquei mais um vez à espera da sua explicação, “Faz-se a conta à semana”." (Escrito em lisboa, 2005)

Friday, September 05, 2008

Psicanálise dos três porquinhos


“Era uma vez ...” – começava a minha mãe a contar novamente a história dos três porquinhos.
Milhares de vezes lhe pedi, e milhares de vezes contou.
Era como se não conseguisse dormir em paz sem a sensação de certeza que uma casa de cimento é que nos protegia. Hoje que analiso, faz sentido.
Em todas as histórias havia lobos maus ou bruxas, fadas ou princesas, venenos ou feitiços. Mas nesta não havia nada disso.
Agora que me psicanaliso devidamente, gostava da história porque a solução era bastante fácil, acessível e concreta. Não era necessária uma chave mágica, uma reversão de feitiço ou determinada postura mental: a resposta era bastante básica. Tijolo em cima de tijolo, com cimento ou betão, não sei o que usavam na altura. No fundo, era uma obra da humanidade que salvava a humanidade (ou, este caso, os porcos).
Talvez devido à sua simplicidade eu gostasse da história.
Por outro lado, o lobo mau não queria um trono, um reinado ou conquistar o mundo: queria algo muito lógico, simples e básico: comida.
No entanto, hoje já nada faz muito sentido.
Inventamos casas cada vez mais sofisticadas, de cimento e betão armado, agora com alarmes e outros automatismos fabulosos.
Continuamos a fugir e a refugiarmo-nos nelas, em vez de enfrentar o lobo mau de uma vez.
Ou por outro lado, tornamo-nos no lobo mau porque comemos porcos sem a mínima piedade (se calhar por isso, sou vegetariana).
Não albergamos os nossos irmãos (porcos) quando eles precisam, quando as casas deles se mostraram demasiado fracas (veja-se todas as tragédias por todo o mundo e muitas vezes na nossa própria terra), agora, simplesmente viramos a cara não querendo ver os nossos irmãos porcos a serem trucidados por lobos maus.
Fechamo-nos então nos nossos palácios grandiosos e materialistas, hiper-protegidos de todos os lobos-maus exteriores, e começamos a fazer criação de lobos-maus interiores.
Porque o maior lobo mau que existe, existe em nós e chama-se medo.
(Voltemos ao básico, ao simples. Viver sem medo…porque o porco e o lobo eram animais e, pela ausência de córtex cerebral não podiam se compreender mutuamente e reconciliar-se. Nos podemos.)

Tuesday, August 19, 2008

As Samskara e a largura dos cintos

Recentemente, num passeio pelos saldos com a minha grande amiga, descobri uma Samskara muito básica.

Uma definição de Samskara que vos posso dar, tendo como base a definição constante no Dicionário do Hinduísmo é , samskaras são "As impressões deixadas no subconsciente da mente por experiências (desta ou de vidas anteriores), que colorem e condicionam toda a vida, sua natureza, respostas, estados mentais, etc."

Quando pensamos nisto, pensamos em coisas "grandes" da vida, como por exemplo, a forma como tomamos as nossas decisões, a forma como tratamos os outros ou reagimos ao que os outros dizem, etc.

Mas, descobri recentemente uma Samskara tão básica, que acho que ilustra muito bem como estas impressões ficam presas na nossa mente e nos condicionam.

Procurava um cinto.Um cinto para as calças. Procurava um cinto daquela determinada largura. A minha amiga perguntou "Porque queres essa largura?" E eu respondi, "É a largura que têm as azelhas das calças", e ala respondeu, "E então...este dá", mas eu não percebia. O cinto que ela me mostrava era muito mais fino do que as azelhas das calças. Aí consegui perceber que a minha Samskara me dizia que os cintos têm de ser exactamente da largura das azelhas...mas se são mais finos, porque não?

Acabei por comprar um cinto muito fino e colocá-lo nas calças. E ficou bem.

Esta estória pode assemelhar-se àquelas estórias Zen, e no fundo, acaba por ser isso mesmo. Precisava daquele insight (na expressão ocidental), ou de eliminar a minha Samskara, que me prendia àquela noção.

Conclusão, passei a usar os cintos que me quero e me apetece, sem olhar ao tamanho das azelhas.

Quando ouvimos aquelas pessoas (a que muitas vezes chamamos "casmurras")cismarem que sim porque sim, ou que não porque não, ou que sou assim e não há nada a fazer, sabemos que não estão prontos para mudar, pois têm medo de perder as suas Samskaras, que já lhes fornecem as respostas (automáticas)...e num mundo onde tudo se quer automático...até dá jeito.

Resta agora, tomarmos consciência de todas as Samskaras que possuímos que nos condicionam todos os dias, para que nos possamos libertar delas, e fazer uma escolha livre e consciente de cada coisa, atitude ou situação.

(P.S. Dedicada a Ti, amiga, que já estás livre de muitas Samskaras!)

Friday, August 08, 2008

Arrumações

Em arrumações, encontro uma breve reflexão, perdida entre pastas, dos tempos de Lisboa. (P.S. Explicarei em breve, o porquê das arrumações)

Folheio uma revista científica a todo o custo para encontrar resposta para as viagens no tempo. Fala de buracos negros, do Stephen Hawking e outro seu amigo que lhe destruiu a teoria por causa de umas partículas quaisquer. É interessante, mas já não será no meu tempo, por certo.
Os óculos começam a escorregar do nariz enquanto mergulho o olhar naquela imagem de um suposto buraco negrão que leva as pessoas e coisas não se sabe para que lado ou para que tempo.
Enquanto isso, levanto a cabeça…Lisboa é inundada de telhados laranja, porque não há telhados de outra cor? Quem escolheu o laranja e porquê?
Putos jogam à bola no meio da rua, vestidos para o domingo, penteadinhos com brilhantina ou gel, a mãe ralha-lhes bem alto e todos os vizinhos ouvem.
Mais à frente, homens param diante de tascas em discussões empolgantes, gritam e gesticulam. Homens de chapéu com sacas plásticas na mão?

Sunday, November 04, 2007

Short-Story fresquinha "Yuppies"

Aqui ha uns dias, por volta das 01h00 da manhã, levantei-me num zás no sofá e escrevi uma short-story. Apartir de agora publicarei tudo o que é meu, original, aqui, no meu blogue.

"Yuppies"
Berraste a palavra não e saíste pela porta fora.
Depois de todas aquelas horas naquela sala cheia de fumo, só queria um banho cliché, como o dos filmes, quando o protagonista tira um tempo para pensar. A diferença é que eu não tinha de pensar, pois não tinha de tomar decisão nenhuma: tu tomaste-a por mim.
Acabavam de chegar ao fim 12 anos de casamento.
Quando nos conhecemos, na faculdade, éramos, como quase todos e todas, jovens e inconscientes, ou melhor completamente afastados do que é a vida real, graças aos nossos queridos papás e mamas que nos deram tudo e não nos explicaram que havia contas para pagar todos os meses, que se pagava por todos aqueles canais caros de televisão, que a gasolina não aparecia simplesmente no carro e que nunca nos deixaram ver o preço das coisas, que não era coisa de criança.
Apesar de eu estar no 3.º ano de gestão e tu no 2.º de economia, achávamos que íamos ser uns yuppies quaisquer a tratar de uma empresa de biliões, e nunca nos preocupamos com a nossa conta bancária, pois não sabíamos que essa também tinha estratégias de gestão.
Embarcamos na vida, os dois, sem medo. Disso não me arrependo. Pena que não haja um curso intensivo de 50h para filhos de papa que decidem ser independentes.
Apaixonei-me por ti sem me aperceber disso. Só quando estava com o Manuel, na esplanada da faculdade, cheia de casais, comecei a olhar à minha volta e todos estavam aos beijos e carinhos, e a última coisa que queria fazer com ele era estar aos beijos. Queria falar-lhe do Dow Jones e do Psi 20, queria discutir as alterações dos planos oficiais, queria saber a opinião dele acerca da gestão por competências, mas a última coisa que queria fazer-lhe era beijá-lo. Acabei com ele sem grande jeito. Afinal era a primeira vez que tinha de acabar com alguém, e por isso, terra a terra, disse-lhe “olha, desculpa, mas é melhor acabar”. Já lá vão 15 anos e apesar de não me arrepender, acho que hoje teríamos uma boa casa, uma casinha de férias no geres, talvez dois filhos e empregos modestos. Com certeza, nas noites de calor, sentar-nos-iamos no baloiço no alpendre a ver os putos brincar e a discutir as últimas da política.
Hoje penso o que seria melhor, casar com a amizade ou casar com o amor?
Em 12 anos nunca te trai fisicamente. Penso que tu também não. Simplesmente nos afastamos como pessoas, como tantos outros que preenchem as estatísticas dos divórcios em Portugal.
Namoramos 3 anos antes de casar, numa festa com muitas presenças de nome lá da terra. Os teus pais fizeram questão de convidar os famosos da terra deles também, não sei bem porquê. Naquela noite foste o meu mundo e no dia seguinte acordei, exausta da festa e quando me tocaste de manhã, arrependi-me de ter casado contigo por uns instantes. Depois passou, mas por uns momentos, sem saber bem porquê, tocaste-me de forma diferente e tive medo. Talvez porque até aquele momento nunca tinha pensado que nos pudéssemos separar e depois do casamento, na minha cabeça, isso tornara-se possível. Talvez fosse puro medo de pessoa apaixonada ou talvez um medo da palavra divórcio.
Finalmente a banheira encheu. O quente envolve-me e cicatriza as lágrimas. Todas as dores de pescoço das últimas horas se dissolvem na água. Ouço vértebras a estalar.
Montaste a tua empresa por cisma. Cismavas que um franchising era melhor do que andar anos na faculdade para depois ser economista de uma grande empresa e nunca ter nada. Em parte, tinhas razão. O teu negócio está muito bem. Com o casamento e com a casa desleixei-me da faculdade quando só faltavam 4 disciplinas para acabar. Havia sempre tanto que fazer, tanto que tratar e quando chegavas a casa cansado, a grande tarefa para mim era fazer-te feliz. Eu, que sempre lutei contra estes estereótipos do papel feminino, encaixei neles como uma luva, como se me nascesse nas entranhas essa estranha maneira de ser. Fiz tudo como uma mulherzinha perfeita, sem saber donde isso veio. Fui educada para ser a gestora de topo que não sabe bordar nem estrelar um ovo, e como que por magia, isso simplesmente surgia, no dia-a-dia da nossa bela vida como casal.
Finalmente acabei o curso e comecei a trabalhar. Apoiaste-me tanto que me apaixonei de novo por ti. No dia da notícia, esperaste-me em casa, com um jantar modesto e um cartaz, feito de várias folhas A4 coladas umas às outras que diz “Bemvinda Sra. Gestora ”. Já estávamos casados há três anos e tudo em casa começou a desmoronar. Nada aparecia feito, querias camisas e não as sabias engomar, queixavas-te de tudo e eu não sabia o que dizer, se te tentava explicar como se fazia alguma coisa, desistias a meio dizendo que nunca serias capaz de aprender. Um economista, patrão-próprio não conseguia aprender a fazer um arroz de tamboril?!
Lentamente fomos resolvendo os nossos problemas mas, para acelerar alguns passos, recorremos a profissionais: uma vez por semana uma senhora levava a roupa todo e ela aparecia engomada e ao sábado à tarde em duas horas outra senhora arrumava a casa toda.
No nosso sétimo ano de casamento, fui promovida a chefe de departamento e tivemos outra crise. De facto, já altura achei particular que muitas crises vinham a seguir a grandes celebrações, e não a celebrações quaisquer, mas a seguir a celebrações minhas. Quando te contei do meu aumento ficaste com uma expressão de estúpido e só depois sorriste e me abraçaste. Hoje percebo que naquele momento, estavas a fazer contas aos lucros do teu negócio para ver se continuavas a ganhar mais do que eu. Até hoje não sei bem se o abraço se deveu a um empate ou a uma vitória da tua parte.
Por brincadeira, comecei a dar formação e convidei-te para seres orador nalgumas sessões minhas e nunca aceitaste. Começaste a passar mais tempo no escritório e deixaste de ir ao ginásio. Chamava por ti para ver um documentário qualquer e tu, que dantes vinhas a correr, só respondias que estavas muito ocupado e que víamos noutra altura. Passei a ficar muito mais tempo sozinha enrolada no sofá.
Cada vez recebíamos menos amigos em casa, e os poucos convívios que tínhamos eram noite de família em datas especiais. Como estavas sempre ocupado passei a aceitar mais responsabilidades, mais formação e a desenvolver algumas ideias que um certo dia mostrei a um colega de trabalho, que falou delas a outra pessoa, que veio ter comigo para um almoço de trabalho.
No nosso décimo primeiro aniversário de casamento, lancei o meu livro. Lembro-me que durante o jantar num restaurante chique da foz, me perguntaste se eu estava a pensar lançar mais algum e eu não soube responder. Perguntaste aquilo de uma forma tão seca e comedida, como se tivesses receio que eu lesse na tua cara as segundas intenções da tua pergunta.
Nessa altura, já ganhava muito mais do que tu e só hoje percebo que essa era a raiz dos nossos problemas. Tínhamos opiniões opostas em relação a tudo mas isso nunca tinha sido um problema. Não casei com o amigo e fiquei sem conversas nocturnas enroladas no sofá, casei com o amor, e esse desfez-se porque o carinho e o excelente sexo, esfumaram-se em pouco tempo.
Nesta fatídica noite de 22 de Janeiro, como em muitas outras de há alguns anos atrás, falávamos de filhos. Usualmente, falávamos sobre isso com seriedade, hoje penso que se tratava de uma seriedade quase profissional, como se de uma decisão de negócios se tratasse. Elogiávamo-nos um ao outro por termos saído da casa dos papas e ter conquistado a independência que tantos desejávamos. Falávamos com algum carinho de esperar mais algum tempo para que tivéssemos as finanças estáveis e depois a conversa fugia para os brinquedos de hoje em dia, a qualidade das escolas e a criminalidade em Portugal. Passado um nada, já falávamos de uma determinada notícia do dia e o assunto dos filhos tinha sido enterrado. Nos tempos da faculdade defendias que o tempo ideal para ter filhos era quando conseguíamos ouvir todas as músicas que estava no TOP naquela semana. No dia em que houvesse duas ou mais que não suportássemos ouvir, estava na altura de ter filhos. Estávamos a ficar quotas.
Hoje, tomo o meu banho relaxado e penso como será ser divorciada, lá fora, no fundo do engate que já nem sei como anda. Berraste que não, não é este o momento ideal para ter filhos e tens razão. Não é. É o momento ideal para um outro tipo de rebento: divórcio.









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Tuesday, October 24, 2006

Bilhete

Vou-me embora para o shopping. Não me esperes. Chego tarde. Preciso largar o nosso lar por momentos e visitar um absurdo qualquer, que não seja muito analisável e questionável, que não represente nada emocional.
È época de saldos e apetece deitar fora o estúpido do dinheiro que de qualquer forma parece sempre pouco e nos faz andar a matar neurónios para arranjar forma de fazer mais e mais.
Vou-me embora em busca das pessoas com olhar perdido nas montras e mãos pesquisadoras em busca da qualidade dos tecidos e das etiquetas.
Vou-me embora para sentir o cheiro nojento da gordura. Vou-me embora para as escadas rolantes, para ser levada e elevada, para sentir o motor aumentar a velocidade e pensar que cresço mais uns centímetros.
Vou-me embora e só volto lá para a meia-noite que é a hora que a mesquita comercial encerra, hora em que acabará em terapia breve, fútil, mas eficaz.
Vou-me embora para adorar sacos de papel com cordinhas a fazer de pegas que me dão mesmo que só compre uma coisinha pequenina. E compro várias coisinhas pequeninas para ter sacos distribuídos pelas duas mãos e me sentir no rodeo drive.
Se queres que te compre algo, manda-me uma mensagem.
Vou-me embora, qual Alice, para o país das maravilhas fúteis.

Amanhã regresso

Olhou para a minha mão e disse “Tem mãos de homem, grossas e ásperas”. Não lhe liguei e continuei a olhar para o nada e a andar em frente. A cigana arrastou o seu manto para o outro lado da rua.
Fui pelo caminho evitando olhar para as mãos e ara as linhas da vida, da cabeça, etc. As mãos servem para trabalhar e pronto. A linha da vida é uma linha-férrea lá para o meio de marco de canaveses, enferrujada e lenta, que nos faz pensar na vida, no amanhã.
Passei lá de novo no dia seguinte e lá estava ela. Não me abordou, ficou a ao lhar para mim, ao longe, como se nos fossemos defrontar num duelo ao meio-dia. Não quero saber, por mais que o meu outro eu queira. A vida são miragens suspensas, pequenos oásis com um mini lago e eu fico a boiar na vida enquanto ela passa. Mais um dia, mais um olhar e, desta vez, troco de passeio de propósito. Ela atravessa a correr e grita-me “Espere”. Dou passos mais certos, mais largos; a vida mata-me a cada vida. Agarra-me o braço e franzo as sobrancelhas com força, o esoterismo é um desejo de desocultação e eu quero tudo oculto. “Vá à sua vida”, “Não, o que quero dizer-lhe é simples. Olhe para ali, está um homem no banco que vem vê-la passar a esta hora, todos os dias Não preciso ler a sua mão para ver isso”. Não tinha sotaque de cigana nem nada que se parecesse, só se vestia como tal. Olhei-a com cara de estúpida e a seguir para o tal homem que era bem-parecido. Agradeci e andei. Não ansiei pelo amanhã porque ele está sempre lá, mesmo que não seja para mim, ele está lá, por isso não vale a pena ansiá-lo.
Noutro dia, a cigana já não estava lá. E o homem estava lá sentado, igual ao dia anterior, sentado no banco com ar relaxado e um olhar pacífico. Escondi-me, ficando à espera a olhar para as minhas mãos de homem, e vi-o ir embora depois de eu passar. Amanhã regresso mais cedo para o ver chegar.

Tuesday, October 17, 2006

Tentativa de conto infantil


Há muito tem atrás tentei incursar nos contos infantis percebendo que se trata de um campo muito dificil da escrita, o qual abandonei por completo. Um cérebro demasiado argumentativo não consegue entrar na intuição e espontaneidade infantis.
O alvitre veio do Escreva.com, um fórum fantástico de escrita criativa que completou há pouco tempo um ano de idade. Perante o estímulo da ilustração ao lado deixamos sair as ideias livremente. Nasceu, mas nas cresceu muito.
A história segue abaixo como a primeira e, provavelmente última, tentative de escrita infantil.

A Flor que voou para longe

O Miguel era um menino com 6 anos, ansioso por entrar para a escola.
A mãe do Miguel, a D.Luísa, trabalhava na pequena quinta de produtos naturais que possuíam, enquanto o marido, pai do Miguel, trabalhava numa fábrica na cidade.
O Miguel ia pouco à cidade e estava ansioso por começar a aprender e a conhecer meninos da cidade.
Até agora ficava a brincar com a vaca Flor, o porquinho Manuel, a família de gatos e todos os cães que lá vinham para brincar – ele não sabia os nomes de todos, pois eram muitos! E brincava com todos, rindo e saltando todo o dia até ao sol de pôr! Enfim, eram todos uma grande família feliz!
Finalmente, chegou o primeiro dia de escola e, logo, Miguel fez um amigo, o Marco.
Nos primeiros dias de escola, o Miguel ficou muito contente. Aprendeu algumas letras, jogos novos e músicas engraçadas! E o professor, o Sr. Josué, era muito simpático e fazia rir toda a turma.
Até que, um dia na cantina, serviram um prato chamado “bife de vaca”! Miguel ficou assustado, e pensou que tinham magoado a Flor, sua amiga de todas as brincadeiras! E começou a chorar por ela!
Depois de descobrir que as pessoas comiam as vaquinhas amigas de Flor, Miguel teve um horrível pesadelo nessa noite, no qual sonhou que as pessoas comiam as vacas!
A sua mãe reconfortou-o e explicou-lhe que na cidade era assim há muito anos.
Miguel ficou dias a pensar o que podia fazer! Como era possível que os meninos simpáticos da escola fizessem tal coisa?! Porque não comiam platinhas, feijões, arroz, sementes, enfim, as coisas da quinta que não eram capaz de brincadeiras?!
O que poderia fazer para mostrar às pessoas e aos meninos que as vacas eram boas, carinhosas e espertas?
Muitos dias depois, Miguel finalmente teve uma ideia brilhante! Levar a Flor à escola!
E lá foi ela, durante a hora do recreio, desfilar por entre os meninos com o seu sininho a dar a dar!!!
A Flor fez sensação! Dava beijinhos aos meninos e meninas da cidade, fazia “mmmuuuuuu” e eles riam-se muito!
A partir desse dia, deixou de se comer as amigas da Flor na escola. Todos queriam ir visitá-la à quinta e brincar com todos os “amiguinhos” do Miguel!

Nos dias seguintes Miguel ficou tão feliz que sonhou que as vacas ficariam livres, que mais ninguém as comeria. Depois, de tanta felicidade, tinham nascido asas à Flor e às outras vaquinhas, e foi então que, de tanta felicidade, a Flor saiu a voar pelos ceús!!!
E Miguel dormiu, finalmente, descansado.

Outubro - O mês do Nariz


Em Outubro chegam os cheiros de inverno. O Ser Humano desperdiçou e mal tratou a sua capacidade de cheirar, de absorver o mundo através do nariz, e sobre valorizou os olhos. Numa altura em que tudo "nos entra pelos olhos adentro" (e também pelos ouvidos), apneas o nariz se safa. Nem a boca escapa a todas as porcarias que lá introduzimos, sem pensar.
O nariz não, o nariz ainda é um orgão de alguma independência, só cheiramos com real vontade aquilo que queremos, e entretanto, afastamos tudo dele, porque cheirar os outros é mal visto pela sociedade, a não ser que seja para comentar o novo perfume de uma marca qualquer elitista.
Em Outubro chega o cheiro do vento, o cheiro das folhas a esvoaçar, o cheiro das árvores nuas, o cheiro da terra molhada de chuva, o cheiro da trovoada, e cheiro do aconchego da roupa no pescoço desnudo durante tantos meses de calor, o cheiro na naftalina ou de outro odor das nossas gavetas, o cheiro a suor quando o sol abre de repente num ida que pensávamos ser de frio, o cheiros dos corpos na cama enrolados e tapados com cobertores, o cheiro do aequecedor a ligar pela primeira vez, o cheiro do fumo do cigarro a sair da boca gelada, o cheiros dos cafés molhados à entrada, o cheiro da madeira a estalar nas lareiras, o cheiro do frio a arranhar as narinas durante uma inspiração profunda...
Eduquem o nariz. Tragam de volta essa inspiração.