Friday, April 11, 2008

Satya...e a minha tese de Mestrado

Satya é um dos cinco Yamas (princípios de relacionamento com o exterior) do Yoga (Ashtanga Yoga) e significa, numa primeira tradução, Verdade, porém, num refinamento e aprofundamento significa muito mais do que simplesmente dizer a verdade até porque, isso, não é nada objectivo.

Satya significa ser autêntico consigo mesmo e também com outros, mas não entrando em conflito com outro Yama: Ahimsa, a não-violência. Dizer a verdade a alguém, sem que sintamos que estamos a ser autênticos, pode ser violento.

Já lá vão uns meses que não escrevo no blog, como sempre. E, como sempre, fico furiosa comigo (Praticando uma certa Ahimsa em mim própria, confesso).

O emprego (ao contrário dos “bons” velhos tempos de trabalho sem emprego) realmente esgota-me e acresce o facto de estar a terminar o mestrado.

Depois de uma desilusão no Doutoramento, voltei à minha dissertação de licenciatura e continuo a investigar o mesmo tema no mestrado: “O impacto da não-pertença a uma organização laboral”.

Há meia-dúzia de anos, quando investiguei (ou tentei investigar) este tema, pensava que tudo estaria nos artigos, nas teses, nas notícias e, nesse tempo, a investigação foi no fundo sobre desemprego, puro e duro.

Na altura realmente não sabia a verdade, mas fui autântica com o que sentia e fazia. Pensava que o desemprego era realmente o pior que podia acontecer a uma pessoa: desprovida de sustento financeiro e de pequenos luxos da vida mas também desprovida das funções latentes do trabalho como a estruturação do tempo, o sentimento de utilidade perante a sociedade e, enfim, a tão falada realização pessoal (e, logo, profissional).

Desconhecia, no entanto, “toda a verdade”. Hoje, tento, na minha investigação contrastar o desemprego (involuntário) com as situações precárias, focalizando-me nos famosos “recibos verdes” (que já não são bem verdes). Não focarei as situações intermédias, por exemplo, os contratos a prazo ou o trabalho temporário, este ultimo digno por si só, na minha opinião, de uma investigação exclusiva.

Cheguei então à minha teoria pessoal (não académica porque não a provei empiricamente) de que, de facto, existem então diversos graus de pertença laboral: A “pertença total” (os chamados pelo senso comum “efectivos”, “da carreira”, “dos quadros”, ou seja os contratados sem termo), a “pertença parcial” (o contrato a prazo, por exemplo), a “pertença-fictícia” (os trabalhadores temporários, os “recibos verdes” nas suas varias modalidades, etc) e a “não-pertença” (ou seja o desemprego total).

Mas a pertença não se mede por contrato ou situação legal. Mede-se também, na minha teoria (não provada), pelo sentimento da pessoa, na sua lógica de envolvimento com a organização, o seu grau de inclusão, penso eu.

Por exemplo, uma pessoa integrada na organização, vulgo “efectiva”, perfeitamente pertencente àquela organização, pode na realidade não sentir qualquer pertença e, quem sabe, entrar e sair do emprego sem ver ninguém, sem falar com ninguém, sem sentir qualquer satisfação pessoal (pelo contrário sentir apenas stress laboral) e, logo, talvez não haja pertença.

Só agora, aos trinta anos, conheço todas as vertentes. Quando fiz a primeira tese pensava “desemprego é mau, emprego é bom”. Felizes os que conseguem ver a preto e branco. Há uns meses atrás pensava “desemprego muito mau, recibos verdes mau, emprego bom”, passado alguns meses... “desemprego muito mau, recibos verdes mau, contrato bom, emprego/ser efectivo muito bom”, e com certeza arranjaríamos mais cinzentos.

Claramente, não existe verdade. Um emprego das nove às cinco (que nunca foi assim, ao contrário da música da Dolly Parton, pois grande parte dos portugueses trabalha 8 horas por dia ou mais) é ladrão de personalidade, de tempo, de auto-conhecimento e talvez até de evolução e realização pessoal.

Hoje, cumprindo esse horário, sinto saudade da liberdade de ser profissional liberal. Sim... não sabia o que seria de mim no mês seguinte, mas "tinha-me" a mim própria.

Sentia que me conhecia e me reconhecia no meu trabalho, era dinâmica, divertida, cansada, satisfeita. Hoje, sinto-me esvaziada, cansada, sem tempo para nada, saindo a correr do trabalho para ver se durante uma hora de viagem ainda consigo ver uns minutos do pôr-do-sol. Quando chego a casa, abraço a tv cabo com toda a força que posso e quando chego à cama, depois de uns minutos de Yoga, só me quero deixar afundar na cama.

Nos intervalos de trabalho, ponho-me em pé ao lado de uma árvore e pasmo um pouco para o ceú, para desligar o intelecto. Dia após dia, o que eram sonhos começam a deixar de o ser e passam a ser apelidados pela nossa mente adulta (que tem a mania que tem sempre razão) de “ideias de quando se era jovem”...

Talvez fosse bom não ter consciência que os sonhos estão a ficar para trás, estamos a “crescer”, a encarar a verdade do mundo, a ser adultos e adultas como “se deve ser”.

A escrita fica aqui no mofo do blog e, no entanto, todo o dia escrevo cartas e e-mails, procurando modelos e minutas, como se a mente dominasse tudo e se esquecesse que um dia, há muito tempo, quis ser mente de escritora.

A verdade realmente não existe, e para uma pessoa desempregada talvez a verdade seja que é a pior situação do mundo, e o mesmo talvez diga um/a jovem licenciado/a a passar recibos verdes mensais, a ganhar uma miséria e com uma enorme sensação de que pertence àquela organização...

Como psicóloga, conheço muitos pais que dizem toda a verdade aos filhos, a verdade daqueles e não destes. A verdade de alguns pais é “luta pelo que queres, tira boas notas, tens de tirar excelente, vai tirar um curso para seres alguém”. Alguns deles praticam Satya, pois eles acreditam mesmo que estão a ser autênticos com eles próprios e com os filhos.

Mas, ao ouvir isto, estão a replicar as suas verdades, não deixando os filhos encontrarem a sua verdadeira Satya.

Não posso ser Satya comigo mesmo a todo o momento, ou a sociedade condenar-me-ia e, logo de seguida, eu própria faria o mesmo.

A minha verdade é que... não acho possível e natural que um ser humano trabalhe 8 horas por dia, seja numa secretária, numa linha de produção, seja onde for.

A quantidade de pessoas que trabalha hoje em dia é muito superior há que o fazia há uma década ou há uns séculos atrás. As mulheres puseram mãos à obra e as mulheres portuguesas são as que mais trabalham na europa (num emprego, em casa, etc, seja por motivos financeiros ou outros).

A sociedade centrou-se de tal forma no trabalho que agora não se consegue descentrar.

Os/as filhos/as são deixados/as com outras pessoas todo o dia e os pais não passam tempo apenas a brincar com os filhos e, quando parece que alguns até passam, se colocarmos uma lente mais atenta, estão a estimulá-los, a ajudá-los no trabalho de casa, a ajudá-los a estudar...“para serem alguém um dia”.

Esquecemo-nos todos/as que já nascemos alguém.

E, se sentimos que somos ninguém, não é pelo trabalho que vamos ser alguém.

É, sim, pelo trabalho que vamos conseguir a ilusão de ser alguém.

É essa a ilusão que nos alimenta e nos move sempre para o futuro, e que nos faz não viver o presente e não conhecer o alguém que já somos.

Sunday, November 04, 2007

Short-Story fresquinha "Yuppies"

Aqui ha uns dias, por volta das 01h00 da manhã, levantei-me num zás no sofá e escrevi uma short-story. Apartir de agora publicarei tudo o que é meu, original, aqui, no meu blogue.

"Yuppies"
Berraste a palavra não e saíste pela porta fora.
Depois de todas aquelas horas naquela sala cheia de fumo, só queria um banho cliché, como o dos filmes, quando o protagonista tira um tempo para pensar. A diferença é que eu não tinha de pensar, pois não tinha de tomar decisão nenhuma: tu tomaste-a por mim.
Acabavam de chegar ao fim 12 anos de casamento.
Quando nos conhecemos, na faculdade, éramos, como quase todos e todas, jovens e inconscientes, ou melhor completamente afastados do que é a vida real, graças aos nossos queridos papás e mamas que nos deram tudo e não nos explicaram que havia contas para pagar todos os meses, que se pagava por todos aqueles canais caros de televisão, que a gasolina não aparecia simplesmente no carro e que nunca nos deixaram ver o preço das coisas, que não era coisa de criança.
Apesar de eu estar no 3.º ano de gestão e tu no 2.º de economia, achávamos que íamos ser uns yuppies quaisquer a tratar de uma empresa de biliões, e nunca nos preocupamos com a nossa conta bancária, pois não sabíamos que essa também tinha estratégias de gestão.
Embarcamos na vida, os dois, sem medo. Disso não me arrependo. Pena que não haja um curso intensivo de 50h para filhos de papa que decidem ser independentes.
Apaixonei-me por ti sem me aperceber disso. Só quando estava com o Manuel, na esplanada da faculdade, cheia de casais, comecei a olhar à minha volta e todos estavam aos beijos e carinhos, e a última coisa que queria fazer com ele era estar aos beijos. Queria falar-lhe do Dow Jones e do Psi 20, queria discutir as alterações dos planos oficiais, queria saber a opinião dele acerca da gestão por competências, mas a última coisa que queria fazer-lhe era beijá-lo. Acabei com ele sem grande jeito. Afinal era a primeira vez que tinha de acabar com alguém, e por isso, terra a terra, disse-lhe “olha, desculpa, mas é melhor acabar”. Já lá vão 15 anos e apesar de não me arrepender, acho que hoje teríamos uma boa casa, uma casinha de férias no geres, talvez dois filhos e empregos modestos. Com certeza, nas noites de calor, sentar-nos-iamos no baloiço no alpendre a ver os putos brincar e a discutir as últimas da política.
Hoje penso o que seria melhor, casar com a amizade ou casar com o amor?
Em 12 anos nunca te trai fisicamente. Penso que tu também não. Simplesmente nos afastamos como pessoas, como tantos outros que preenchem as estatísticas dos divórcios em Portugal.
Namoramos 3 anos antes de casar, numa festa com muitas presenças de nome lá da terra. Os teus pais fizeram questão de convidar os famosos da terra deles também, não sei bem porquê. Naquela noite foste o meu mundo e no dia seguinte acordei, exausta da festa e quando me tocaste de manhã, arrependi-me de ter casado contigo por uns instantes. Depois passou, mas por uns momentos, sem saber bem porquê, tocaste-me de forma diferente e tive medo. Talvez porque até aquele momento nunca tinha pensado que nos pudéssemos separar e depois do casamento, na minha cabeça, isso tornara-se possível. Talvez fosse puro medo de pessoa apaixonada ou talvez um medo da palavra divórcio.
Finalmente a banheira encheu. O quente envolve-me e cicatriza as lágrimas. Todas as dores de pescoço das últimas horas se dissolvem na água. Ouço vértebras a estalar.
Montaste a tua empresa por cisma. Cismavas que um franchising era melhor do que andar anos na faculdade para depois ser economista de uma grande empresa e nunca ter nada. Em parte, tinhas razão. O teu negócio está muito bem. Com o casamento e com a casa desleixei-me da faculdade quando só faltavam 4 disciplinas para acabar. Havia sempre tanto que fazer, tanto que tratar e quando chegavas a casa cansado, a grande tarefa para mim era fazer-te feliz. Eu, que sempre lutei contra estes estereótipos do papel feminino, encaixei neles como uma luva, como se me nascesse nas entranhas essa estranha maneira de ser. Fiz tudo como uma mulherzinha perfeita, sem saber donde isso veio. Fui educada para ser a gestora de topo que não sabe bordar nem estrelar um ovo, e como que por magia, isso simplesmente surgia, no dia-a-dia da nossa bela vida como casal.
Finalmente acabei o curso e comecei a trabalhar. Apoiaste-me tanto que me apaixonei de novo por ti. No dia da notícia, esperaste-me em casa, com um jantar modesto e um cartaz, feito de várias folhas A4 coladas umas às outras que diz “Bemvinda Sra. Gestora ”. Já estávamos casados há três anos e tudo em casa começou a desmoronar. Nada aparecia feito, querias camisas e não as sabias engomar, queixavas-te de tudo e eu não sabia o que dizer, se te tentava explicar como se fazia alguma coisa, desistias a meio dizendo que nunca serias capaz de aprender. Um economista, patrão-próprio não conseguia aprender a fazer um arroz de tamboril?!
Lentamente fomos resolvendo os nossos problemas mas, para acelerar alguns passos, recorremos a profissionais: uma vez por semana uma senhora levava a roupa todo e ela aparecia engomada e ao sábado à tarde em duas horas outra senhora arrumava a casa toda.
No nosso sétimo ano de casamento, fui promovida a chefe de departamento e tivemos outra crise. De facto, já altura achei particular que muitas crises vinham a seguir a grandes celebrações, e não a celebrações quaisquer, mas a seguir a celebrações minhas. Quando te contei do meu aumento ficaste com uma expressão de estúpido e só depois sorriste e me abraçaste. Hoje percebo que naquele momento, estavas a fazer contas aos lucros do teu negócio para ver se continuavas a ganhar mais do que eu. Até hoje não sei bem se o abraço se deveu a um empate ou a uma vitória da tua parte.
Por brincadeira, comecei a dar formação e convidei-te para seres orador nalgumas sessões minhas e nunca aceitaste. Começaste a passar mais tempo no escritório e deixaste de ir ao ginásio. Chamava por ti para ver um documentário qualquer e tu, que dantes vinhas a correr, só respondias que estavas muito ocupado e que víamos noutra altura. Passei a ficar muito mais tempo sozinha enrolada no sofá.
Cada vez recebíamos menos amigos em casa, e os poucos convívios que tínhamos eram noite de família em datas especiais. Como estavas sempre ocupado passei a aceitar mais responsabilidades, mais formação e a desenvolver algumas ideias que um certo dia mostrei a um colega de trabalho, que falou delas a outra pessoa, que veio ter comigo para um almoço de trabalho.
No nosso décimo primeiro aniversário de casamento, lancei o meu livro. Lembro-me que durante o jantar num restaurante chique da foz, me perguntaste se eu estava a pensar lançar mais algum e eu não soube responder. Perguntaste aquilo de uma forma tão seca e comedida, como se tivesses receio que eu lesse na tua cara as segundas intenções da tua pergunta.
Nessa altura, já ganhava muito mais do que tu e só hoje percebo que essa era a raiz dos nossos problemas. Tínhamos opiniões opostas em relação a tudo mas isso nunca tinha sido um problema. Não casei com o amigo e fiquei sem conversas nocturnas enroladas no sofá, casei com o amor, e esse desfez-se porque o carinho e o excelente sexo, esfumaram-se em pouco tempo.
Nesta fatídica noite de 22 de Janeiro, como em muitas outras de há alguns anos atrás, falávamos de filhos. Usualmente, falávamos sobre isso com seriedade, hoje penso que se tratava de uma seriedade quase profissional, como se de uma decisão de negócios se tratasse. Elogiávamo-nos um ao outro por termos saído da casa dos papas e ter conquistado a independência que tantos desejávamos. Falávamos com algum carinho de esperar mais algum tempo para que tivéssemos as finanças estáveis e depois a conversa fugia para os brinquedos de hoje em dia, a qualidade das escolas e a criminalidade em Portugal. Passado um nada, já falávamos de uma determinada notícia do dia e o assunto dos filhos tinha sido enterrado. Nos tempos da faculdade defendias que o tempo ideal para ter filhos era quando conseguíamos ouvir todas as músicas que estava no TOP naquela semana. No dia em que houvesse duas ou mais que não suportássemos ouvir, estava na altura de ter filhos. Estávamos a ficar quotas.
Hoje, tomo o meu banho relaxado e penso como será ser divorciada, lá fora, no fundo do engate que já nem sei como anda. Berraste que não, não é este o momento ideal para ter filhos e tens razão. Não é. É o momento ideal para um outro tipo de rebento: divórcio.









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Wednesday, October 17, 2007

Chegar aos 30

Já lá vai em Maio a última vez que escrevi algo. Realmente, a minha percepção de tempo tem andado muito alterada. Há uns anos atrás parecia que nada passava, tudo custava, a vida não fluía.
Desejava conquistar o mundo, e acabava sem nada ou sem grande coisa. Há dois anos atrás parei de desejar tudo , de repente, tudo começou andar muito depressa.
Será que tem que ver com chegar aos trinta?
O meu sonho de ser escritora, ou melhor de ser contadora das histórias que me saiam da cabeça tão naturalmente, parece que acabou. Talvez por isso escreva menos. Talvez esteja curada da minha hipergrafia.

Se estou curada, resta saber se a cura me agrada mais do que a doença...
Afinal, tenho o direito de ter uma doença que gosto, não?
Tenho saudades dos meus antigos ataques de escrita, o não conseguir parar de escrever, as ideias a jorrar, a mente a ferver, a ansiedade da leitura de outrem...

Terão os quase trinta me roubado a doença? Será que o meu inconsciente curouo-me sem que o meu consiente soubesse?
A verdade é que se a oportunidade não surgiu, então não devia mesmo ser por aí. Não era suposto eu escrever nada para outros lerem.
De vez em quando ainda me dá esta vontade de escrever, mas neste momento do tempo, o universo criou os blogs que servem perfeitamente para dar vazão aos meus breves e raros casos agudos de hipergrafia.

Entretanto, produzo dezenas de textos todos os meses no âmbito científico. Relatórios disto e daquilo, memo's, reflexões, cartas, etc.

Obtenho o mesmo prazer do pressionar destas teclas. Por isso, talvez no fundo o que mais saudade me dá é de já não ter tantas histórias a jorrar, e quando, ocasionalmente uma começa aos saltos e me faz arregalar os olhos, contento-me em saber que o bichinho ainda lá está...e medito, em semi-lotus, em silêncio.

Friday, May 25, 2007

Esta vida


Caro Blog:

Não devoto, nem a ti nem ao meu diário pessoal, que mantenho desde os 11 anos, a atenção que mereceis. Talvez até o faça em todas as áreas da vida.
Toda a vida é vivida a correr, e por mais que tente abrandar parece que a vida que corre no exterior de mim não deixa. Tudo é fast, tudo é highTec e deixou de haver espaço para a acalmia (que é uma palavra tão fantástica), cá dentro ou lá fora.
Gostava de não fosse assim, gostava que tudo fosse em câmara lenta para que pudéssemos apreciar cada momento com atenção forçada.
As pessoas desiludem-me, eu desiludo-me, demoro um tempo a pensar e depois tenho de me forçar a agir fast, a esquecer, bota para a frente que atrás vem gente.
Tenho pensado que tudo o que já fiz nesta vida já é muita areia para a minha camioneta, muitas memórias, muitas pessoas, muitos empregos, muitas tarefas...o que origina muitas reflexões, muita nostalgia, muita saudade, muitas ambições, muitos desejos.
Devíamos vir equipados com um sistema tipo o CTRL+ALT+DEL ou poder fazer um FORMAT C: de quando em vez, guardando num DVD os backup's que interessam e mandar tudo o resto para a reciclagem. Porque é tão difícil fazer isso?
Acredito que vimos para a terra aprender coisas, evoluir...mas tenho a sensação que vim equipada com gigas a mais de espaço, e claro, começo a "crashar".
O Yoga ensinou-me a fazer um reboot de vez em quando, mas nem sempre consigo.
Alguém tem outra técnica?

Tuesday, March 20, 2007

Fome

Um comentador disse aqui no meu blog que eu devia alimentá-lo pois ele já estava com fome. É uma boa analogia, mas quando o próprio tem fome, não consegue alimentar mais nada. A minha revolta para com o sistema é cada vez maior. Tento por todas as formas manter uma atitude de contentamento perante a vida, de neutralidade, de espera positiva mas também de proactividade, mas nada parece aparecer. As questão mais terra-a-terra têm me retirado alguma da inspiração para a escrita. A minha tese de licenciatura foi sobre o desemprego, pois acho que já previa ir lá parar, e realmente, assim é.
O problema é que os conceitos já não se aplicam e ninguém percebe!
Como trabalhadora a recibos verdes, não sei o que é emprego, o que é salário, o que é subsídio de
férias, o que é subsidio de natal, o que é um bónus, um reconhecimento, um patrão, o que são as horas-extra, enfim, existe uma série de expressões que para mim, e para muitos outros, são de outro mundo! Progredir na carreira, ser promovido, subir de escalão, até a palava carreira já não faz muito sentido!
As minhas aventuras nos serviços de finanças e de segurança social são a única coisa que ainda me consegue fazer rir! Quando vou abrir actividade e fechar no dia seguinte o funcionário até se ri! No início não percebia, e tive de lhe explicar que tenho de abrir actividade para passar um recibo verde de um trabalho que fiz há quase um ano. Eles levantam as sobrancelhas e respiram fundo com um misto de pena e tentativa de compreensão e voltam aos papéis.
Apetece-me fazer um abaixo assinado contra os recibos verdes. Alguém quer participar?
Depois rio-me sozinha, pensando que o mal deste país é os jogadores de futebol e o campo de trabalho sexual. Se quem trabalha no campo sexual (chamadas eróticas, vídeos, prostituição, etc.) passasse recibos verdes, não era preciso aumentar impostos. POr certo que o défice baixava.
Se houvesse escalões mais elevados para os ordenados de jogadores de futebol e outros do futebol, não era o peixe míudo que sofria.
A Euribor subiu e eu via reflectir-se no meu empréstimo.
Não há nada que eu possa fazer. Perdi a esperança no livre-arbitrio.
E não é nada contra Portugal ou o governo, não gosto nada do discurso miserabilista ou de pôr as culpas nos governantes (afinal eu nunca tive coragem de me meter na política, por isso não sei o trabalho deles!), é simplesmente uma perda total de crença no ser humano.
Não acredito no ser humano. Este ser a que chamamos pessoas, já não são humanas. São seres autómatos, ambiciosos, apegados a tudo que é a suposta "qualidade de vida", novos-ricos...
Por tudo isto, não tenho alimentado o meu blog.
Não tenho do quê me alimentar a mim primeiro.
E sinto que perco a minha essência a cada dia que passa, por não me sentir reconhecida e validada nesta sociedade. Por andar anos a estudar para uma profissão que não é reconhecida (ou melhor toda a gente reconhece a sua necessidade mas depois ninguém abre vagas, porque isto e aquilo, porque não há dinheiro, porque o governo ainda não reviu o dossier XPTO de há não sei quantos anos!).
Peço desculpa pela fome que o meu blog tem.
Vou tentar alimentá-lo.
Ah, e obrigado pelo comentário...se não fosse o comentário acho que nem sequer tinha tido forças para vir aqui escrever qualquer coisa...

Abaixo assinado

Por favor subscrevam este abaixo assinado!

http://www.snp.pt/abaixoassin2.htm

Obrigado

Tuesday, October 24, 2006

Bilhete

Vou-me embora para o shopping. Não me esperes. Chego tarde. Preciso largar o nosso lar por momentos e visitar um absurdo qualquer, que não seja muito analisável e questionável, que não represente nada emocional.
È época de saldos e apetece deitar fora o estúpido do dinheiro que de qualquer forma parece sempre pouco e nos faz andar a matar neurónios para arranjar forma de fazer mais e mais.
Vou-me embora em busca das pessoas com olhar perdido nas montras e mãos pesquisadoras em busca da qualidade dos tecidos e das etiquetas.
Vou-me embora para sentir o cheiro nojento da gordura. Vou-me embora para as escadas rolantes, para ser levada e elevada, para sentir o motor aumentar a velocidade e pensar que cresço mais uns centímetros.
Vou-me embora e só volto lá para a meia-noite que é a hora que a mesquita comercial encerra, hora em que acabará em terapia breve, fútil, mas eficaz.
Vou-me embora para adorar sacos de papel com cordinhas a fazer de pegas que me dão mesmo que só compre uma coisinha pequenina. E compro várias coisinhas pequeninas para ter sacos distribuídos pelas duas mãos e me sentir no rodeo drive.
Se queres que te compre algo, manda-me uma mensagem.
Vou-me embora, qual Alice, para o país das maravilhas fúteis.

Amanhã regresso

Olhou para a minha mão e disse “Tem mãos de homem, grossas e ásperas”. Não lhe liguei e continuei a olhar para o nada e a andar em frente. A cigana arrastou o seu manto para o outro lado da rua.
Fui pelo caminho evitando olhar para as mãos e ara as linhas da vida, da cabeça, etc. As mãos servem para trabalhar e pronto. A linha da vida é uma linha-férrea lá para o meio de marco de canaveses, enferrujada e lenta, que nos faz pensar na vida, no amanhã.
Passei lá de novo no dia seguinte e lá estava ela. Não me abordou, ficou a ao lhar para mim, ao longe, como se nos fossemos defrontar num duelo ao meio-dia. Não quero saber, por mais que o meu outro eu queira. A vida são miragens suspensas, pequenos oásis com um mini lago e eu fico a boiar na vida enquanto ela passa. Mais um dia, mais um olhar e, desta vez, troco de passeio de propósito. Ela atravessa a correr e grita-me “Espere”. Dou passos mais certos, mais largos; a vida mata-me a cada vida. Agarra-me o braço e franzo as sobrancelhas com força, o esoterismo é um desejo de desocultação e eu quero tudo oculto. “Vá à sua vida”, “Não, o que quero dizer-lhe é simples. Olhe para ali, está um homem no banco que vem vê-la passar a esta hora, todos os dias Não preciso ler a sua mão para ver isso”. Não tinha sotaque de cigana nem nada que se parecesse, só se vestia como tal. Olhei-a com cara de estúpida e a seguir para o tal homem que era bem-parecido. Agradeci e andei. Não ansiei pelo amanhã porque ele está sempre lá, mesmo que não seja para mim, ele está lá, por isso não vale a pena ansiá-lo.
Noutro dia, a cigana já não estava lá. E o homem estava lá sentado, igual ao dia anterior, sentado no banco com ar relaxado e um olhar pacífico. Escondi-me, ficando à espera a olhar para as minhas mãos de homem, e vi-o ir embora depois de eu passar. Amanhã regresso mais cedo para o ver chegar.

Tuesday, October 17, 2006

Tentativa de conto infantil


Há muito tem atrás tentei incursar nos contos infantis percebendo que se trata de um campo muito dificil da escrita, o qual abandonei por completo. Um cérebro demasiado argumentativo não consegue entrar na intuição e espontaneidade infantis.
O alvitre veio do Escreva.com, um fórum fantástico de escrita criativa que completou há pouco tempo um ano de idade. Perante o estímulo da ilustração ao lado deixamos sair as ideias livremente. Nasceu, mas nas cresceu muito.
A história segue abaixo como a primeira e, provavelmente última, tentative de escrita infantil.

A Flor que voou para longe

O Miguel era um menino com 6 anos, ansioso por entrar para a escola.
A mãe do Miguel, a D.Luísa, trabalhava na pequena quinta de produtos naturais que possuíam, enquanto o marido, pai do Miguel, trabalhava numa fábrica na cidade.
O Miguel ia pouco à cidade e estava ansioso por começar a aprender e a conhecer meninos da cidade.
Até agora ficava a brincar com a vaca Flor, o porquinho Manuel, a família de gatos e todos os cães que lá vinham para brincar – ele não sabia os nomes de todos, pois eram muitos! E brincava com todos, rindo e saltando todo o dia até ao sol de pôr! Enfim, eram todos uma grande família feliz!
Finalmente, chegou o primeiro dia de escola e, logo, Miguel fez um amigo, o Marco.
Nos primeiros dias de escola, o Miguel ficou muito contente. Aprendeu algumas letras, jogos novos e músicas engraçadas! E o professor, o Sr. Josué, era muito simpático e fazia rir toda a turma.
Até que, um dia na cantina, serviram um prato chamado “bife de vaca”! Miguel ficou assustado, e pensou que tinham magoado a Flor, sua amiga de todas as brincadeiras! E começou a chorar por ela!
Depois de descobrir que as pessoas comiam as vaquinhas amigas de Flor, Miguel teve um horrível pesadelo nessa noite, no qual sonhou que as pessoas comiam as vacas!
A sua mãe reconfortou-o e explicou-lhe que na cidade era assim há muito anos.
Miguel ficou dias a pensar o que podia fazer! Como era possível que os meninos simpáticos da escola fizessem tal coisa?! Porque não comiam platinhas, feijões, arroz, sementes, enfim, as coisas da quinta que não eram capaz de brincadeiras?!
O que poderia fazer para mostrar às pessoas e aos meninos que as vacas eram boas, carinhosas e espertas?
Muitos dias depois, Miguel finalmente teve uma ideia brilhante! Levar a Flor à escola!
E lá foi ela, durante a hora do recreio, desfilar por entre os meninos com o seu sininho a dar a dar!!!
A Flor fez sensação! Dava beijinhos aos meninos e meninas da cidade, fazia “mmmuuuuuu” e eles riam-se muito!
A partir desse dia, deixou de se comer as amigas da Flor na escola. Todos queriam ir visitá-la à quinta e brincar com todos os “amiguinhos” do Miguel!

Nos dias seguintes Miguel ficou tão feliz que sonhou que as vacas ficariam livres, que mais ninguém as comeria. Depois, de tanta felicidade, tinham nascido asas à Flor e às outras vaquinhas, e foi então que, de tanta felicidade, a Flor saiu a voar pelos ceús!!!
E Miguel dormiu, finalmente, descansado.

Outubro - O mês do Nariz


Em Outubro chegam os cheiros de inverno. O Ser Humano desperdiçou e mal tratou a sua capacidade de cheirar, de absorver o mundo através do nariz, e sobre valorizou os olhos. Numa altura em que tudo "nos entra pelos olhos adentro" (e também pelos ouvidos), apneas o nariz se safa. Nem a boca escapa a todas as porcarias que lá introduzimos, sem pensar.
O nariz não, o nariz ainda é um orgão de alguma independência, só cheiramos com real vontade aquilo que queremos, e entretanto, afastamos tudo dele, porque cheirar os outros é mal visto pela sociedade, a não ser que seja para comentar o novo perfume de uma marca qualquer elitista.
Em Outubro chega o cheiro do vento, o cheiro das folhas a esvoaçar, o cheiro das árvores nuas, o cheiro da terra molhada de chuva, o cheiro da trovoada, e cheiro do aconchego da roupa no pescoço desnudo durante tantos meses de calor, o cheiro na naftalina ou de outro odor das nossas gavetas, o cheiro a suor quando o sol abre de repente num ida que pensávamos ser de frio, o cheiros dos corpos na cama enrolados e tapados com cobertores, o cheiro do aequecedor a ligar pela primeira vez, o cheiro do fumo do cigarro a sair da boca gelada, o cheiros dos cafés molhados à entrada, o cheiro da madeira a estalar nas lareiras, o cheiro do frio a arranhar as narinas durante uma inspiração profunda...
Eduquem o nariz. Tragam de volta essa inspiração.

Ócio



Mais umas semanas em casa e a preguiça invade. Depois sinto-me mal por me considerar uma preguiçosa e decido aderir à palavra ócio, é bem melhor.
Aconselho a leitura de http://www.fafisma.com.br/ocio.htm, um texto sobre o Ócio de Joseph Pieper, e passo a citar:
"Contra a absolutização da atividade. Ócio é exactamente "não-atividade". Ele é uma forma do silêncio. Ócio é exactamente aquela forma do silêncio que dispõe para ouvir algo. Somente o silencioso é capaz de ouvir. O ócio é a atitude da mera submersão receptiva na realidade; é a abertura da alma que, somente ela, recebe os grandiosos conhecimentos, tornando-se feliz, o que nós nem sequer pelo "trabalho intelectual" poderíamos alcançar".

[Nota: por falar em citar, nunca se esqueçam de citar os autores de onde tiram excertos, é mesmo falta de respeito não fazer isto!]

Mas por outro lado é mesmo preguiça: ligar o PC, ligar a net, entrar no blogger, fazer o login, clicar no blog e começar a escrever...é muito trabalho.
Não tenho nada que me sentir mal, não é? Ser capaz de gozar o ócio é uma competência que a maior parte das pessoas não possui neste sociedade centrada no trabalho. E, por ócio, não entendam, tirar um tempo para ficar em casa e arrumar umas coisas, pois isso é outra forma de trabalho. E ficar em casa a pensar no trabalho também o é.

Tenho bloqueado fortemente a minha vontade de escrever. Estou naquela fase do "não vale a pena", de que serve? Estou fortemente desiludida com o mundo em geral e nem sequer consigo escrever sobre isso. Não quero pensr que não vale a pena, mas a minha mente é mais forte do que a intuição para escrever.