Friday, April 01, 2016

O meu avô: “Araújo, o Justo”


Para muitas pessoas, um avô é um avô: o pai do pai ou da mãe. Para mim, o meu avô Araújo é o pai que eu não tive, o único avô que algum dia tive e é a minha figura de 
vinculação masculina.

O meu avô Araújo é um contador de histórias. Seja qual for o tema, há sempre uma história para contar. Dele herdei um pouco desta paixão por contar histórias. A paixão por juntar letras e palavras, a pouco e pouco, e contorcê-las até elas expressarem o que queremos, até elas terem a força e densidade para penetrarem o outro. Esta é a forma principal de um escritor expressar amor.

O meu avô Araújo é o único homem que algum dia conheci que está sempre pronto a dançar. O Passo Doble, o Samba o uma pimbalhada qualquer. Um jeito corporal muito próprio, de quem jinga a anca sem mexer o tronco superior. Um sorriso a acompanhar toda a dança.

O meu avô chama-se Manuel Justo Araújo e, é uma das pessoas mais justas que conheço. Um dos meus sonhos sempre foi ter o apelido JUSTO. Adoro esse apelido. Adoro a cadência, a melodia e o profundo significado dessa palavra.

O meu avô tem um verde calma nos olhos mas quando se espelham em nós, percebemos a energia que lá vai por dentro. Uma energia sempre pronta a fazer tudo por todos.

O meu avô conta piadas sobre tudo. Ri de tudo. Vive com tudo.
Hoje sou quem sou, muito devido a ele nunca me ter tratado como “uma menininha”. A oficina tinha sempre a porta aberta. Na sua geração, eram comuns os preconceitos de género e às pessoas que, por perfeito acaso do destino, nasciam com vaginas, eram vedadas muitas atividades.

A garagem, a oficina, o seu local de trabalho estiveram sempre de portas abertas para mim. Eu entrava e fazia uma pergunta. E cedo soube o que era uma grosa, um formão. Soube soldar. Soube o que era uma jante, um compressor, como funciona a embraiagem ou tudo o mais que, como é óbvio tinha sempre uma breve (ou não tão breve!) história por detrás.

Um dia trouxe um banco feito na escola, por mim. A disciplina era “madeiras”. E disse-lhe que queria pintá-lo (infelizmente, não há milagres, e como alguém havia decidido que o quarto ia ser cor de rosa, logicamente, o banco teria de ser da mesma cor!). “OK, vamos pintar”. Não há dúvidas. Em pouco tempo estávamos a pintar o banco. 

Na altura, ele não tinha pistola (depois aprendi a pintar à pistola) e pintamos à mão. “Tens de “puxar” a tinta, assim…vês…que é para não ficar os risquinhos…isso…movimentos fundos…”. Esse banco está aqui ao meu lado. À espera de tempo e espaço para usar o decapante e mudá-lo de cor.

O meu avô, um dia, trouxe umas aparelhagens novas para casa e disse para eu não mexer. Só podia estar lá quando ele também estivesse. A coleção de Vinis era demasiado tentadora. Observei atentamente tudo o que ele fazia e depois, à sucapa, ia para lá. O Deck de cassetes, um amplificador topo de gama, 4 ou 5 colunas espalhadas pela sala (note-se, isto é antes do dolby sorround! Corre o ano de 1988…).

Sempre a viver no medo de ser descoberta, quando podia lá ia eu para a agulha do gira discos. Ramones, Tina Turner, Queen, Doors, e tantos outros, pela minha mão trémula de criança ainda em desenvolvimento, a tentar a todo o custo assentar a agulha no início daquela faixa do LP (O LP era 45 ou 33 rotações? Já não me lembro!!!). E cantar. Sozinha. E ouvir, os agudos e os graves, e mexer nas vias e ver o que acontecia. E a tentar distinguir a qualidade de som.

O dia chegou em que ele topou. Alguma coisa ficou mal arrumada. “Tu andaste lá em cima?”. Nunca fui criança de grande medo, mas lembro-me de o ter, contudo respondi assertiva e calmamente qualquer coisa do tipo “só estive a ver umas coisas”. “Eu disse-te que não podes, podes estragar”. 

Lembro-me, passado algum tempo, de ele começar a confiar em mim e ver que eu gostava daquilo. E começar a explicar-me coisas. E dizer-me para eu ver que agora é que se via a diferença de som… “ Vês, vês a diferença, isto agora é outra coisa!”, dizia emocionado. Eu não chegava à tanto. A música parecia à mesma e o meu ouvido não distinguia, mas olhava para ele maravilhada e dizia que sim. Para o agradar. Para o ver radiante com o que ele havia conseguido fazer, fosse o que fosse.

Estar na presença do meu avô é e sempre será uma sensação de prazer enorme para mim. Com ele sente-se que se pode estar. Não somos julgados (a não pelas pequenas coisas típicas dos “generation gap”).

Recebemos sempre um sorriso. Recebemos sempre um voto de confiança em como somos capazes de fazer algo. Ele nunca diz “tu não és capaz” ou “isso não vais conseguir ”. Ele diz-nos “Ora mostra lá como fazes isso!”, mesmo que seja na expectativa de nos ver não conseguir!

O meu avô, até se reformar, teve uma profissão incrível: projecionista de cinema. O Cinema tornou-se a grande paixão da minha vida. Cresci com direito a um banquinho no fundo da sala, pequeno, escondido e desconfortável. Ele chegava a casa e anunciava as estreias, informando a família do tipo de filme que era e se era adequado a irmos todos ver ou só alguns.

Ir vê-lo trabalhar era um fascínio para mim. A atenção ao detalhe, o cuidado ao transportar as bobines com os filmes, a realização dos cortes na pelicula. Preparar a bobine para o intervalo. O chão cheio de restinhos de cantinhos de plástico ou frames eliminados. Aquela máquina gigante, cinzenta e fria, nas mãos do meu avô ganhava toda a vida do mundo.

O som da película a começar a rodar. A voz do meu avô a ser projetada pela sala dentro …”As imagens que estão a ser projetadas, pertencem ao filme que será exibido nesta sala de cinema a partir do próximo dia 20 de Dezembro, às 21h45 e na sessão da meia-noite”. Guardo ainda hoje um poster do ALLIENS I, e tantos outros, em rolinho, relembrando a emoção de ele trazer um poster só para mim.

A cadeira, de napa castanha, gasta pelo tempo, onde ele se sentava e visualizava o decorrer do filme. O meu avô teve uma profissão de sonho para mim. Quando os cinemas começaram a melhorar em termos de tecnologia, ele tinha de encontrar uma solução para competir e inventou todo um sistema surround, à volta da sala toda (sem ser um sistema pré-comprado).

Com o meu avô Araújo, tudo é assim: tudo tem salvação. As máquinas vivem o tempo que merecem. Elas são arranjadas, salvas, ressuscitadas as vezes que forem precisas. Nada vai para o lixo. Nada se troca ou se manda fora porque está fora de moda ou porque não se gosta da cor ou porque saiu um novo modelo.

As “coisas” nascem para persistir até ao fim da sua existência. Com o meu avô tudo pode ser salvo. Tudo (e todos) tem DIREITO a que se tente. A que se dê o nosso melhor. Muitas pessoas me apelidam de “maria das velharias”. Tenho velharias porque elas têm valor, têm histórias em si, foram salvas. Eu permito que elas continuem a existir e que não sejam vulgar e friamente substituídas por outras sem o único motivo válido: chegarem ao seu fim natural.

Aqui, ao meu lado, está uma Televisão Samsung que o meu avô me ofereceu. Deve ter 30 ou 40 anos. Sim, já existiam televisões super avançadas mas eu vi sic e tvi nesta TV. Cujos botões fazem estalidos, cujo caixilho aparenta madeira e cuja sintonia é feita com um pauzinho num buraquinho e vamos rodando e rodando até apanhar. Só aqui ainda posso ver a estática…supostamente (segundo algumas teorias) resquícios do da energia do big bang. Será UHF ou é na outra banda? A TV anda a falhar? Vamos buscar um secador de cabelo porque é a humidade. Os raios catódicos. Sim, com ele aprendi que tudo se resolve. Que somos capazes de resolver tudo, de sarar tudo.

O meu avô coleciona livros. Em criança aprendi o valor das Enciclopédias. As seleções do Reader’s Digest e o círculo de leitores. O meu avô não era grande leitor, mas amava os livros. E eu amo-os também. Talvez sejemos os elementos da família que amam mais os livros. Aquelas edições douradas, pesadas, às quais eu detestava limpar o pó ao sábado de manhã! Ir à enciclopédia procurar uma informação qualquer tornou-se um hábito rapidamente.

O Aquilino Ribeiro, o Vitor Hugo e outros, não me puxaram. Mas quando encontrei Garret, a minha vida mudou. Andava pela casa com as Viagens na minha Terra, as Flores sem fruto, as Folhas Caídas. O ultra-romantismo entranhou-se-me.

O meu avô Araújo, o meu único avô, ensinou-me a andar de bicicleta.
Não me lembro que algum dia ter ouvido uma crítica acérrima sobre algo que eu vesti, algo que eu disse, algo que eu defendi.

O meu avô também discute, mas sabe-se que ele discorda quando levanta as sobrancelhas. Porque ele escolhe as lutas. Porque nunca foi, nem em jovem nem mais velho, dado a picuices, de criticar os outros por tudo e por nada. Não me lembro de ser criticada por ele por nenhuma opção de vida que eu tenha tomado. Encolhia os ombros e deixava-nos ir.

Talvez África tenha ficado um pouquinho nele. Anos depois África entranhou-se em mim também. A África que nos abre a mente e o espírito e nada volta a ser igual. África que nos mostra que a vida é curta e vã e não vale a pena andar com minudências.

O meu avô, o Justo, é um homem integral, um veterano de guerra, de quem eu acho que herdei a força, a resiliência, a capacidade de achar que tudo pode ser resolvido e de que todas as coisas e todas as pessoas têm direito a todas as oportunidades, a todas as tentativas, até esgotarmos, até nada mais haver para reutilizar, repensar.

O cérebro do meu avô funciona sempre “fora do quadrado”. Quando menos se espera, ele “engendra” uma solução inédita. Junta peças daqui e dali. OBSERVA as coisas sem os seus significados usualmente associados. Retiras-lhe tudo e pensa neutro, pensa sem “pré-conceitos”. E descobre outro caminho. Uma outra via.

Até dizermos por fim, “já não tem arranjo”. Sei que ele o disse, eventualmente, mas ouvi muito poucas vezes o meu avô a dizer “já não tem arranjo”.

Sei que ele tem razão. Tentar de tudo. Pensar fora do quadrado. E só dizer “Já não tem arranjo” quando já se esgotou tudo. Ele é e sempre será o último a dizer “já não tem arranjo”

Até lá, tudo tem arranjo.


Friday, March 25, 2016

O Aparigrahah nos dias de hoje…

O Aparigrahah nos dias de hoje…

Assim como a Satya (sub-tema deste blogue) é um 5 dos Yamas (comportamento éticos) do caminho do Yoga, também o é o Aparigrahah.

Apesar de todos os Yamas serem conceitos interessantes e ricos e terem sido os dos primeiros apontamentos ético-filosóficos sustentados de que há registo na humanidade (O Yoga tem 5000 mil anos!) o Aparigrahah é sem dúvida um dos que mais me fascina.

Por diversos motivos, mas principalmente porque é cada vez mais desafiante praticá-lo, à medida que praticamos o TAPAS (Profundo esforço e estudo de si próprio).

Além disso, como cientista social analisar estes construtos ancestrais do Yoga e cruzá-los com observações quotidianas da sociedade atual é simplesmente delicioso…

Aparigrahah significa Desapego. O Não-apego. É fácil compreender a parte material do Yama: não acumular além das necessidades, não procurar o luxo, não ostentar.

O que poderá parecer difícil, com o tempo torna-se fácil, pois a riqueza e leveza de espírito vem ao de cima muito rapidamente quando nos desapegamos das coisas. STUFF.

Quando deixamos de desejar coisas pelo simples facto de as termos. Quando passamos a suprir necessidades em vez de concretizar desejos. Quando analisamos o porquê daquele desejo: vem de mim, ou vem de fora?

Muita coisa deixa de fazer sentido: novos modelos de “coisas”, novas marcas ou novas cores de coisas. As coisas são as mesmas. Nós é que procuramos variantes consoante o estado atual da nossa mente, o nosso humor, as influências.

Curiosamente, de muitas formas, deixamos que façam de nós, vitimas. Os Fashionistas, expressão recente, designa as pessoas que se deixam vitimizar pela moda.

Ademais, a manipulação de massas realizada pelo marketing desde os anos 60 do século XX, conquistam agora o seu auge máximo: gerar necessidades novas a cada dia.
Algo caro parece ser sinónimo de algo bom. TER muito parece ser sinónimo de ser bem sucedido. Usar GRIFFES é sinónimo de ser cool.

O Aparigrahah significa deixar de apegar-se às coisas. Mas vai muito mais além disso.
Quando se fala de desapegar-se de pessoas, a situação parece tornar-se estranha.

Para todos nós, seres humanos, desapegar-se de alguém tornou-se difícil.

Nem parece que durante milhares de anos fomos nómadas. Deixávamos um local, uma “casa” que construímos para uma temporada, uma vila, sem hesitar. ADAPTAR-SE era obrigatório para a sobrevivência.

A sociedade parece transparecer ou influenciar-nos a forma a que pensemos que deixar alguém seguir o seu caminho é algo mau. “Não lutamos pela pessoa”. “Não demos o nosso melhor”. “Não fizemos pressão suficiente para que as coisas funcionassem”. “Não quisemos saber da pessoa”. “Desistimos facilmente”.

São todas expressões comuns nos dias de hoje.

Ao falar de desapego a pessoas, obviamente, falamos também de desapego de emoções. Desapego do passado. Desapego da história, da nostalgia, do que algo “foi” ou significou.

Mas o Aparigrahah, o não-apego, é mais profundo. Praticar o não-apego significa deixar alguém ir, porque já não faz sentido apegar-se à pessoa, à história ou às emoções que a pessoa provocou. É difícil chegar ao momento do desapego mas quando finalmente se chega, é libertador.

Praticar o Aparigrahah significa amar alguém ou a nós próprios, deixando alguém ir. 

Desatando as amarras da vida do outro. Desatando as nossas próprias amarras que nos prendem a quem fomos em determinado momento da vida.

A vida segue para a frente. Sempre. Se nós ficamos apegados, o problema não é dos outros, a culpa não é dos outros. Apegarmo-nos é desamor a nós próprios.

Desapego é simplesmente desatar amarras. Se o rio levar, foi. Se ficar ao nosso lado, perfeito. Fica, sem apego. Fica, porque o desejo incondicionalmente. Fica, porque quer. 

Sem pressões, sem argumentos, sem persuasão ou manipulações, porque se tudo isto é necessário, já nada existe de verdadeiramente profundo. Só existe apego, no sentido quase de dependência tóxica.

Mas o último desafio do Aparigrahah occore, na minha opinião, num nível mais abstracto, psicológico e muito pessoal:  o desapego de ideias e emoções que nos dominam.
Pensamentos, ideias e emoções que fazem parte do ser humano que fomos e não do que somos. São uma réstia, são emoções provenientes de um ser antigo que fomos, algo residual.

Desapegar-se de medos construídos pelo nosso eu passado é realmente o último desafio do Aparigrahah.

Sabemos que ainda estamos apegados a medos e a uma ideia de quem fomos quando somos invadidos por projeções futuras que fazemos com base unicamente nas informações que temos do presente e do passado. O que logicamente não faz qualquer sentido! No presente não há imputs. No presente só existe o EU, verdadeiro, conectado.

Ideias, medos, pensamentos, emoções estão todos inevitavelmente ligados a pessoas. Por isso, muitas vezes praticar o Aparigrahah com as outras pessoas significa libertarmo-nos melhor desse eu residual que ainda está presente em nós e do qual também nos temos de desapegar.

Na sociedade atual, infelizmente!, quando praticamos o desapego muitas vezes as pessoas interpretam-nos como “desligados” dos outros. Pessoas que se desligam facilmente e que, por isso, são julgadas negativamente.

Ironicamente, parece que de alguma forma, quem insiste, quem pressiona, quem luta muito, quem perturba até…parece ser mais valorizado! Não é estranho?

Praticar o Aparigrahah não significa que nos desliguemos facilmente. Aliás, nada indicia que este é um processo fácil.

Mas é um processo de profundo respeito para com o outro. E de profundo respeito para com o nosso eu presente e futuro.

E, acima de tudo, de profundo amor pela vida, nossa e do outro.

O processo interno psicológico de nos desapegarmos das nossas emoções e sentimentos é duro… [Relembrando algumas as emoções humanas fundamentais cientificamente estudadas!: medo, alegria, raiva, expectativa, tristeza, aversão…]

Lamento dizer, se choca alguém. Mas é muito mais difícil praticar o Desapego, do que ficar a insistir, preso da roda da mesma coisa todos os dias. É muito mais difícil deixar ir do que pressionar, do que bater na mesma tecla.

De alguma forma, tudo se assemelha à dependência de substâncias. É muito mais difícil desapegarmo-nos da substância do que ficar lá.

Praticar o Aparigrahah , o não-apego, é permitir ao outro encontrar o seu verdadeiro caminho e permitir ao nosso eu presente abrir novos caminhos.


Saturday, March 12, 2016

Páginas de nada

Lembram-se da vida simples? Eu lembro-me. Lembro-me de ser uma menininha que só queria uma coisa na vida: Escrever. Só isso. Juntar palavras, contar histórias, ilustrar mentes, descrever pensamentos, pôr no papel todas as emoções e as sensações sentidas pela alma humana. Era só isso. Na altura, já parecia tanto. E quanto mais escrevia mais difícil parecia.

E quanto mais lia, mais me achava incapaz. Já tanto estava escrito. Já tanto estava tão excelentemente bem escrito – quem era eu para chegar e começar a escrever coisas? Para quê? Garret e Pessoa acompanhavam-me e retiravam-me cada vez mais a força.

E, de repente,  quase 30 anos depois desse dia iluminado no qual o olhar do meu professor brilhou a olhar para um texto meu, dou por mim a não perceber tudo o que fiz. E fiz tudo. 
Fiz de tudo. Fiz demais. Quando na realidade, pouco fiz.

Às vezes acho que fiz tudo aquilo que era capaz de fazer, e não fui capaz de fazer o que queria fazer. Só isso.

E dou por mim sentada, um sábado à noite, a reescrever a minha vida num Currículo de 30 páginas. A reescrever a minha vida de forma a que ela se encaixe nos standards dos outros. A cada passo tenho de fazer isso. Encaixar-me nos quadrados que os outros criam para mim.

ResearchGate, Orcid, Degois, AcademiaEdu, Europass, CV e mil e uma siglas mais para designar isso: recontar constantemente a minha história aos outros. Perder tempo com os outros.


Trinta páginas de nada. Pouco fiz que realmente mudasse alguma coisa. Talvez esteja deprimida hoje. Só hoje. Gosto de pensar que toquei algumas almas mas, a grande parte das coisas que fiz estão enterradas em bibliotecas mofentas, listadas em currículos armazenados em armários, um pouco por todo o país. E em alguns países mais.


Amanhã, quando acordar, pode ser que esta sensação passe. Que tudo o que fiz valha algo de novo, aos meus olhos, que são os únicos que realmente contam.

Thursday, March 03, 2016

Espero na calma da noite.
Espero por mim.
Que eu chegue
Que me note
Que me desate
Me recomece.
O fim de mim já  foi
Mas o começo nao chega.
Pacifico o meu eu
para que ele espere
Que o intermeio acabe
Para que o meu Eu comece.

Patrícia Araujo (2016)

Vazio

Do profundo vazio
Em que existo
tenciono renascer.
Sem caminhos pré -traçados
Sem ideiais
Sem pessoas.
Sem planos estruturados.
E um novo vazio surgirá.
Sem dor,
sem histórias,
sem inverdades
Apenas cheio de meus passos.
Escolhido, não imposto.
Eu serei a mesma,
Mas vazio será outro.

Patrícia Araújo  (2015)

Monday, February 01, 2016

Profissão: Vivente

Todos os seres humanos (espero eu!) passam por momento de reconversão, de mudança, de repensar as suas vidas.
Para mim, como investigadora, sempre foi meu foco profissional, analisar e procurar padrões e explicações desses momentos e dos subsequentes, no que respeita à carreira.
Depois de anos a investigar isso e a ter não sei quantos graus académicos sobre o assunto, pareço ter chegado à (brilhante?!) conclusão que o nós concebemos como trabalho, tem de perder a sua centralidade urgentemente.

Para uma grande parte das pessoas, ficar sem trabalho é um momento bastante perturbador. Podem pensar que  estou a falar dos rendimentos que advêm do trabalho, mas não, estou mesmo a falar só do trabalho.

Se não "tivéssemos" de trabalhar e se possuíssemos tudo o necessário para viver, o que faríamos? Nada? A palavra nada assusta muita gente.

Quer na prática profissional quer na minha vida pessoal assisto a muitas pessoas com medo do nada. Dizem, à boca cheia ..."ah, bom era deixar de trabalhar...não fazer nada". Mas quando se lhes pede para praticar o NADA por 5 minutos, não conseguem.

Como seria a vida, se simplesmente tivéssemos como profissão viver?

Vivens, Viventis (genitivo, do latim).

Profissão? Vivente. Que vive. Que está vivo.

Profissão? Amans, Amantis. Que ama.

Profissão? Respirans, respirantis. Que respira. Que existe.

Pensans, Pensantis. Que pensa. Que se dedica profundamente ao pensamento.

Estudans, Estudantis.

Observans...

Et cetera.

Percebe-se?

Parece fácil, mas não é.

Agora, resta-me descobrir como pagar as contas.

Saturday, January 09, 2016

Os auto centrados - uma nova sub-espécie humana

Um novo tipo de pessoas apareceu. Um novo perfil psicológico.

Os Auto-centrados.

Talvez seja uma forma elegante de os chamar egoístas, pensam os leitores. Mas não, não é a mesma coisa.

Há umas décadas, alguém egoísta, era até, de certa forma, elegantemente estratégico. Pensava apenas em si, não queria saber dos sentimentos ou pensamentos dos outros, mas socialmente comportava-se de uma forma controlada, disfarçando -digamos- o seu egoísmo, já que este era mal visto pelos outros (ou pela maioria pelo menos).

Os auto-centrados não são necessariamente egoístas e, muitas vezes, nem estratégicos e definitivamente não são elegantes nem preocupados com o que os outros pensam.

Só pensam em si, só falam de si próprios e conseguem manter (será, que consegue?) a longo prazo, amizades que conseguem aturar esta atitude.

E são muitos, acreditem.

Basta fazer um pequeno teste.

Conviva com alguém cerca de UMA HORA. Deve chegar. Ouça a pessoa e faça perguntas, interessadamente claro (como eu pensei que toda a gente fazia!).

No final de uma hora, contabilize quantas vezes a outra pessoa (amigo ou potencial amigo) perguntou algo sobre si. Exemplos Básicos "E tu, o que achas?", "E tu, o que tens feito?", como anda a tua vida, achas que sim, conta-me lá a tua visão, etc etc.... qualquer coisa que se assemelhe a REAL INTERESSE pelo outro!!!!!!!!!!!

Parecia-me impossível existirem pessoas assim, Que não conseguem ver a vida pelos olhos dos outros. Que vivem os seus problemas tão profundamente como se não existissem outros seres humanos por aqui. Que não sabem o que está a acontecer à sua volta com os seus amigos, os seus irmãos, ou outros seres significativos.

Ser auto-centrado e cego para os outros dá origem, numa grande parte das vezes, a uma ira estranha. Uma certa agressividade negativa que advém, obviamente, da falta da abertura ao outro, da falta de afecto, e até da falta de afecto negativo da parte do outro, porque os auto-centrados combatem tudo e todos. Todos os outros estão errados. Todos são "más pessoas". Eles são os sofredores. Incapazes de viver o outro, sentir na pele a história de vida do outro, incapazes de um processo profundo a que Carl Rogers chamou de EMPATIA. 

Em+Pathos.

Colocar-se plenamente no lugar do outro. Ser capaz de viver o sofrimento (Pathos) do outro.

Selfless. 

Sair de si próprio. 

Ter o prazer e a oportunidade e ver o outro, estar nos olhos dele. Sair da nossa vida, única e insignificante, ainda que seja apenas por uns breves instantes. Ser capaz de deixar o nosso eu quietinho por um bocadinho e ir para o outro.

Os auto-centrados. Os ego-centrados. Vocês sabem quem eles são. Eles estão a crescer a toda a velocidade.

Um novo tipo de egoísmo, socialmente aceite, por alguns. 

E não pensem que tem que ver com a tecnologia, a globalizaçao. Talvez tudo relação mas não direta. A tecnologização não é panaceia para explicar todos os males. Os valores, a consciência e a vida coletiva em sociedade estão cá na mesma. Diferentes.

Só colocando umas lentes diferentes conseguiremos identificar esta nova sub-espécie humana.

Tenho alguns amigos (bem, "conhecidos") que ficaram assim.

Fecharam-se ao outro. OU já era assim e eu é que não via. 

Capazes de falar horas e horas sobre os seus problemas, as pessoas que lhe fizeram muito mal, os negócio que correram mal. Pessoas que começam muitas vezes frases por "Porque eu....", "Porque eu sou assim e....", "Porque comigo....o que acontece é isto e isto". 

Talvez seja funcional e altamente bem sucedido no mundo do trabalho e no mundo do "Gerar dinheiro" porque já não têm grande consciência social. CONSCIÊNCIA. Noção clara dos impactos que as nossas ações podem causar aos outros. Perderam-na. 

E o outro, o "Contigo", não surge. Não aparece na conversa. Nem uma pontinha ínfima de interesse sobre como o outro está. Que problemas estará a viver? Em que é que eu poderia ajudá-lo? 

Porque eles não possuem espaço mental para isso. Ocuparam-se com todo o seu eu. E, logo, nunca caberá um outro eu nas suas vidas.