Sunday, January 18, 2015

The List is Out! Oscars, version. 87

Perante a minha grande agitação nestes dias em que é divulgada a lista dos nomeados da Academia, só me dá para pensar, o que raio ando a fazer nesta vida, se o pico mais relevante de todo o ano é este!
E é, para mim.
Descarregar a lista, marcar a data da noite da carpete vermelha na agenda, começar a ir ver todos os filmes que estão em falta, encontrar amigos com quem trocar impressões, procurar (nao muito arduamente) um grupo com quem passar a Noite dos óscares, entre petiscos e bom vinho, mantinhas e sofãs.

Se um dos melhores (se não o melhor) momento do meu ano é este, o que raio é que eu estou a fazer da vida?
Porque não trabalho em algo relacionado com cinema?
Eu cresci no cinema. Não tanto como gostaria, mas com um avô projeccionista,o melhor que me poderiam deixar fazer era ir com ele ao cinema. 
Estou certa, quase certa, que, caso eu tivesse nascido rapaz, poderia ter passado imensas matinés lá, no banquinho detrás só para mim. Infelizmente, as meninas não podem ver determinadas coisas e têm mais coisas que fazer do que passar a vida a ver filmes...
Pois...azar. Ainda fez pior. 
Podia ter resolvido a curiosidade toda na altura, mas agora, trinta anos depois, o melhor momento do meu dia continua a ser ver um filme.

Talvez se eu tivesse seguido uma profissão ligada ao cinema, a magia desapareceria.

Continuo a querer ser, ou já sou, escritora. A arte, em forma de escrita, está-me no sangue. Mas perante tão fantásticos autores neste mundo, às vezes simplesmente arrumo esse desejo no cantinho de mim e penso, "não vale a pena". Não dá para fazer melhor.

Ano a ano, confesso, eu e se calhar muitos mais críticos profissionais ou amadores, tenho sentido a Academia, o brilho da academia, a desvanecer um pouco. Talvez como sempre, como em toda a história, estou no generation Gap e ainda nem dei conta. Já começo a pensar e a dizer ocasionalmente que algo "já não é o que era"...e isso é um sinal...de que estou a passar para a geração anterior.

Independentemente de tudo, esta emoção de preparar e viver a noite da academia, ficará. Talvez para sempre. E não sei se, no futuro, haverá algo que lhe tome o lugar no ponto mais alto do meu ano...

Sunday, November 30, 2014

3 gerações – 1 noite – 6 horas e a busca pelo amor

3 gerações – 1 noite – 6 horas

Há uns dias saí à noite. Com este texto, não quero soar como um “velho do restelo” que vem –como sempre ao longo da história – fazer as suas queixas e observações de como a geração seguida está condenada, à rasca, ou outra qualquer reflexão que a geração mais velha faz da mais jovem. Isto aconteceu ao longo de toda a história e há registos de Aristóteles dizer algo do género.
Não é essa a intenção.
Ao longo de toda a minha vida eu saí à noite. Desde os 15 aos 36, com mais ou menos frequência, em várias cidades de Portugal. Se tivesse de fazer uma média, talvez umas 3 a 4 vezes por ano saí numa noitada entre amigos, com dança e disco até às tantas.
Umas foram ótimas, outras satisfatórias outras péssimas, como é óbvio. Não sendo especialista no ramo, sou especialista (dentro do que é possível e cognoscível!) em comportamento humano (se 11 anos de carreira em Psicologia não o são, não sei o que poderá sê-lo).

Ao longo da minha vida saí à noite. No início, naqueles tempos em que, com 15 ou 16 anos, saí com primos, tias, pais e era aceitável e saudável sair com os pais, e aprender algumas coisas com eles. Passando a fase de sair com os namorados, maridos até à fase de sair com amigos e amigas, bem ou mal conhecidos.

 Há dias saí a uma daquelas discotecas conhecidas, que já mudaram de nome (e talvez de gerência) pelo menos umas 7 vezes (que me lembro, assim de momento), em 10 ou 15 anos. É uma casa conhecida e reconhecida e apesar de não ter gostado da noite, não revelarei o nome, porque a intenção não é fazer queixa ou denegrir a imagem de um estabelecimento.
A Noite era fraca. Num espaço onde poderiam caber talvez 300 pessoas em simultâneo ou até 1000 ou mais ao longo das entradas e saídas da noite, estiveram presentes, na minha visão, umas 50 ou 60 pessoas desde a uma e tal da manha até às cinco.
Enquadrado o panorama, vamos ao que interessa.
A certa altura encostei-me para trás, depois de já ter queimado por certo muitas calorias em dança, e liguei o meu “reflexómetro”.
Ninfomaníaca - Parte I (2013) PosterAli estavam 3 gerações.
Os jovens, presença assídua na noite, com idades algures desde os 14, 16 ou 18 (apesar de ser ilegal, todos sabemos que eles estão lá) até aos 20 e picos.
Os trintões (onde me insiro), desde os 30 até aos 45 anos, num tempo histórico em que, para mim, é cada vez mais difícil adivinhar idades, graças a forte prevenção do envelhecimento.
E a geração após 45, até aos 50 e tais, os quais vemos, nitidamente, que se há uma década eram pouco presentes na vida noturna, agora, em quase todas as saídas, esta geração sai. Sai porque gosta da noite, sai porque quer prolongar um pouco a juventude ou sai, claro, para o “engate” (que para mim é um termo de flert, engraçado e não visa ser insultuoso).
Algures no meio estava eu. Saída da geração jovem e a caminho da outra.
Penso que qualquer pessoa reflexiva e madura, cai na tentação de ter aqueles pensamentos do costume “esta geração está perdida, só quer borga…é indecente…etc.etc”. Claro que nos passa pela cabeça. É inevitável, o nosso contexto foi outro e a educação e cultura estão entranhados no nosso superego, de forma quase cravada. Ultrapassando isso, passamos a uma análise quase antropológica.

Cada geração tem o seu ritmo, os seus quês, as suas verdades, as suas resoluções, os seus motivos de existir no desenvolvimento da espécie humana. É o que eu penso.

Encosto-me para trás e fico a pensar nisso. Qual será a função desta geração? Têm 16 anos e afirmam que o seu livro preferido são as “Sombras de grey” e o filme preferido é o “Nymphomanic” (informação em primeira mão, numa formação que dei a jovens!). Falam de sexo e fazem-nos sem grandes tabus.

Histórias (preocupantes) relatam-me atos sexuais em casas de banho escolares. Paralelamente, são púdicos e preconceituosos face aos trabalhadores do sexo. Insultam-nos facilmente, com os insultos que já conhecemos.

Na sua opinião, realizar sexo frequentemente e facilmente, sem tabus, sem sentimentos, em troca de favores, melhoria do ego, umas bebidas, jantares ou prendas à borla, é aceitável, mas alguém que o faz estruturadamente e faz disso profissão, não é aceitável.

Do outro lado, na geração com mais de 45 ou 50, observei dois pólos opostos. Casais, aparentemente recentes, que parecem estar a começar de novo. AS taxas de separações e divórcios trouxeram aberturas e liberdade para a qual todos havíamos lutado durante muitas decádas. Por consequência, é claro, procura-se relações mais tardias. No reinicio de relações após os 45, claro que, a muitos, apetece sair, dançar, curtir.

Uma outra vertente, e lamento aqui a minha expressão subjetiva, os “abutres”. Essencialmente homens, à procura que no fim da noite, sobrem alguns restinhos. Nada de mal, cada um tem o que pode, e só aceita quem quer, mas são fáceis de detetar.

Tudo bem. Falta os trintões. Claro que estão também a recomeçar algo ou então, vão sair com os respectivos namorados ou cônjuges. Vi poucos neste última caso. Não vi quase nenhum casal. Deduzo que grande parte fossem solteiros.

Esta geração situa-se num limbo curioso. Quer o aspecto jovem num parceiro/parceira, mas quer a estabilidade e maturidade da geração acima dos 45!? Será possível? (Claro que há também abutres, em todas as gerações!)

Os jovens dançam, adoram agora a quizomba, as influencias africanas, algum house (pouco), alguma coisita brasileira. São fases. Mas estão todos no engate. Um engate direcionado para qualquer coisa que tenha pernas (homens e mulheres). A sedução existe, mas a palavra sedução não se parece adequar. Não há …Charme. Charme não é uma palavra que eu use regularmente, mas é uma palavra excelente. Não há charme. Há flert, há invasão de barreiras, há tentativas toda a noite. Ao contrário de há 15 anos atrás (quando eu comecei a sair), os homens dançam. E muito. E bem.

O ritual de acasalamento mudou, mas agora não é para a reprodução, claro, é só mesmo para o acasalamento. Mas homens e mulheres assemelham-se bastante nos rituais físicos.
Existe hoje alguma igualdade no processo. Dançam e abanam, olham intensamente, metem conversa rápido, sabem tudo uns dos outros rapidamente, adicionam-se no facebook, e têm a ilusão que isso é conhecimento. É fácil ter a sensação de que se conhece alguém muito bem. E, por isso, sofrem também muitas desilusões facilmente (experiência de formadora, psicóloga e pessoa!) mas não sabem lidar com as desilusões. Não estão equipados.

Faço este caminho reflexivo agora na escrita, mas na altura lá, tudo me atacou em 15 minutos…até chegar a uma pergunta, de repente, que me invade: Como é que eles  vão encontrar o amor?
Será mais fácil? Deste ponto de vista, externo e pessoal, não sei…parece mais difícil.
Fiquei a pensar. Senti compaixão. Acho que é dificil ser um jovem à procura de amor nos dias de hoje.
Se todos nós ao longo da vida (e desde sempre, desde toda a história humana!) tivemos momentos de confundir amizade com amor, atração física com amor, carinho profundo com amor, sexo com amor …será que para eles não estará mais dificultado? O Sexo perfeitamente disponível e o consumismo facilmente instalado?
Um estudo, nos EUA, diziam que as Mulheres tiveramuma média de seis parceiros durante toda a sua vida. Para os homens, o número éde sete. Qual será o valor para a geração actual? E para Portugal? Nem consigo estimar…e não encontrei estatísticas recentes…

Alguém, um amigo, há muito tempo atrás, disse-me que as mulheres jovens são todas interesseiras. Há alguma verdade nisto. Oferecer um telemóvel, uma noite, uma jantar umas prendas, sempre confundiu a mente humana, sejam mulheres ou homens. É compreensível, vemos nisso um sinal de afeto, apesar de qualquer humano “equipado”, percebe que nisto poderá haver intenções ulteriores.
Portanto, entre os tabus sexuais que foram ultrapassados nas últimas décadas e uma geração marcada para tecnologia…será fácil para eles diferenciar onde está o amor?
Adicionando a isto a vontade de viver a vida, aproveitar ao máximo, o que acontecerá?
Este viver a vida é extremamente positivo e pela primeira vez na história, em muitas partes do mundo, tornou-se possível! Controlamos doenças, vivemos mais, construímos, temos comida, dinheiro, todos os confortos que outros séculos não tiveram! Todos devem cultivar este instinto de viver a vida, ao invés  de sobreviver. A minha questão não é essa, e nem ponho isso em questão!

Mas se nós, trintões, depois de tanta reflexão e experiência de vida, ainda nos enganamos, se os quarentões e os cinquentões ainda procuram amor, a busca dos mais jovens não estará adicionalmente dificultada?




Wednesday, November 26, 2014

OS Flerts nos dias de hoje...e como os humanos continuam sem se entender...

O título era para se chamar "Homens e mulheres" qualquer coisa...

Mas quis ser inclusiva e seria injusto até porque sei que o Flert entre pessoas do mesmo sexo...sofre dos mesmos problemas.

Mas perdoem-me eu TENHO de falar dos homens e mulheres em particular.

HOMENS: O FACTO DE UMA MULHER SE ARRANJAR E APARECER bonita para ir tomar café com vocês...não significa nada, necessariamente. Têm de ler outros sinais...

Eu sei, eu sei, esta cena dos sinais é uma cena muito confusa...mas é o que torna a "arte" da comunicação humana tão fascinante. Às vezes desgasta, porque andamos a lutar, a lutar e, às vezes, falo por mim, tentamos ser tão claros, tão directos, que até pode magoar, ou não entrar em algumas mentes...e voltar a gerar mal-entendidos. Enfim. Não há solução.

Aliás, segundo algumas mulheres me disseram, muitas vezes as mulheres arranjam-se imenso para impressionar...as outras mulheres!

Eu arranjo-me porque me apetece. (Quando me apetece...)

Voltando ao flert.

HOMENS: UMA MULHER IR TOMAR CAFÉ com vocês, não significa nada.

UMA MULHER ACEITAR JANTAR ...nao significa nada.

Enfim...preciso continuar?

Adoro a passagem do melhor filme de sempre "WHEN HARRY MET SALLY" que contem a melhor discussão de sempre sobre os homens e as mulheres poderem ser amigos (é obrigatório ver, por isso, não vou explicar!).

Os homens e as mulheres podem ser amigos. Na minha reflexão pessoal, às vezes é preciso uma dose de maturidade muito grande para não confundir coisas. E generalizando...às vezes antes dos 25, 28 ou 30 anos, tal é difícil se não impossível.


Claro que todos temos dúvidas acerca dos FLERTS.

POR exemplo...e eu continuo sem saber a resposta a esta: MULHERES: SE UM HOMEM COM QUEM VOCÊS SAEM HÁ 3 SEMANAS VOS CONVIDA PARA O CASAMENTO DE UM FAMILIAR, O que pensar? É sério? ficou sério? É namoro?

Estão a pensar...

Pensem...pensem...

Pensem mais...


mais....

Parece fácil, né?


A maioria das pessoas...


acharia que...


SIM! É SÉRIO!!!


Porquê?


É Óbvio...

vai-se conhecer a família!

Logo...é sério!!!


BAHHH....não há respostas certas. Às vezes, só se queria uma companhia para um casamento! Sim, é  verdade.

Como vêem, tanto um homem como uma mulher interpretam mal os tais dos sinais maravilhosos...

HOMENS: Uma mulher que sorri para vocês, comunica, pergunta coisas...NEM SEMPRE ESTÁ INTERESSADA nem em namorar, casar, ou ir para cama com vocês!!!!

HÁ mulheres, comunicadoras, extrovertidas, cultas, que cultivam amizades...sem ser FLERT!

Será que este texto servirá para esclarecer!?

HOMENS: SE UMA MULHER VOS CONVIDA, para seja o que for...por ter sido ela a convidar, não podem concluir...NADA!!!!

Depois não venham cá falar dos MIXED SIgnals. Sim, eu percebo que o fenómeno aconteça. Já me aconteceu imenso. Às vezes fui rápida a triar,..outras vezes fui mais totó, mas quando se olha para trás, junta-se os pontinhos e tudo vira luz.

Talvez com este texto "IN YOUR FACE" tudo seja mais rápido.

E vocês perguntam..."ah, e tal, está bem...mas então como é que se sabe que realmente há interesse amoroso"?!

Pronto, sobre isto não vale a pena gastar palavras. Sabe-se e pronto. E além disso, já milhões de poetas, escritores e artistas de todas as artes explicaram isso, e mesmo assim, com certeza não cobre a panóplia de experiências de cada ser humano particular .

Às vezes dar um estalo ou implicar com alguém, pode significar interesse.Noutras culturas...enfim, insultar alguém pode ser um acto de carinho.

Isso agora é extremamente pessoal.

Mas agora de mulher para homem: PAREM de achar que sair, tomar café, aparecer no café muito bonita, significa que queremos algo com vocês!!!

A fabulosa arte do FLERT muda com os tempos, é verdade. Há 100 anos era quase impossível um se humano que tivesse um pénis e um ser humano que tivesse uma vagina serem amigos. Vá-se lá saber porquê, a construção sóciocultural levou-nos por aqui, e em 80% do meu tempo de pensamento, e com a história quase toda na cabeça, continuo sem compreender porque chegamos aqui.

Mas mesmo assim, conseguimos a muito custo, ultrapassar algumas coisas.

Vamos lá ver se este momento de RADICAL HONESTY faz alguns de nós pensar...

Thursday, November 06, 2014

"Esta não tem medo de nada..."

Hoje, um membro da minha família, no meio de uma conversa sobre conduzir à noite, temporal, chuva, etc, disse "Esta não tem medo de nada..."

Foi mesmo daquelas coisas que quase ninguém nota ou liga.

Ali no meio da conversa sabem, daquelas coisas que nem se dá por ela, assim, num instante fugidio. Mas ficou no ar. Hanging there. Com diz o fabuloso diálogo do "When Harry met Saly", ficou ali pendurado no ar, como se fosse um daqueles balões de banda desenhada.

Eu? Não tenho medo de nada? Fantástico.

É que nem sequer sei se, naquela frase tempestuosa de 5 segundos, se aquilo foi um insulto ou um elogio. É daquelas frases maravilhosamente ambíguas. Ficamos sem saber se nos admiram por não termos medo, ou se somos uma olelha negra do rebanho, por não os ter.

Não, não tenho medo de conduzir à noite, de ir sozinha a lado nenhum (acho que todos tivemos e espero...todos ultrapassamos), da chuva, do vento, dos assaltos, do que tiver que acontecer. Não tenho medo de bicho nenhum (salvo seja, se me aparece um leão à frente, ainda lhe chamo bichaninho!). Não tenho medo de alturas, nem do locais fechados. Enfrentei-os todos. Que me lembre. Ainda me falta tirar o curso de paraquedismo....mas lá iremos.

Mas tenho medo. Tenho medo de ficar sem liberdade. Tenho medo que me aprisionem. Tenho medo que me julguem, que me estereotipem, que me limitem. Tenho medo de deixar de ter curiosidade face a tudo neste mundo. Tenho medo de perder a fé em mim e no meu potencial ilimitado (como todos têm...). Tenho medo de perder o meu raciocínio. Tenho medo de não amar. Tenho medo de não ser amada. Tenho medo de não aproveitar cada minuto desta vida que parece que passa cada vez mais rápido à frente dos meus olhos. Tenho medo de extremismos e radicalimos em todas as áreas. Tenho medo de desenvolver medos estúpidos e não fundamentados (alguns dos quais referi acima). Tenho medo de não viver a vida. Tenho medo de não (re)encontrar alguém com quem partilhar tudo, inclusivé estes medos.

Como vêem, tenho muitos medos.

Sunday, October 19, 2014

Algures em Ferrarias, Concelho de Penela, a mente vagueia até à expressão “Cedências”

Chegada à casa rural que escolhi para o meu retiro de uma semana, o silêncio impera.
Um cão ladra bem lá ao fundo, alternando apenas com os sons das badaladas da igreja, algures cá perto. Cheguei hoje. Só sei onde estou porque o GPS me disse, de resto, não faço a mínima ideia o que anda pelos arredores.
De caminho para cá espreitei o castelo de Penela, na sua altitude magistral e, PENELA, nas ruas ruas íngremes. Com muita pena não encontrei um cafezito ou uma esplanada onde me sentar e apreciar a vista majestosa lá de cima.
Pela primeira vez, faço férias a sós. AS atitudes das pessoas à minha volta acerca desta decisão foram muito diversas… “UI, sozinha…que perigo!”, “Ui, uma mulher sozinha…que estranho…”, “Ai é? Vais sozinha, fazes MUITO bem!”, “Vais sozinha? OK.”. Enfim, desde o pólo do MEDO até ao pólo de uma certa admiração por eu ir sozinha de férias.
Eu própria cá estou a ultrapassar talvez um dos últimos mitos/preconceitos que estava um pouco entranho, talvez da infância, talvez da educação de outros tempos/culturas. “Uma mulher pouco ou nada faz sozinha….”. Seria grave, mas não incorrecto, acrescentar o que muitas pessoas (verbal ou mentalmente) acrescentam a esta frase “é melhor ir com um homem”, ou “a mulher precisa de um homem”.
Quem me conhece  sabe perfeitamente que eu não suporto a noção de discriminação e desigualdades de género. Arrepia-me, irrita-me, mexe-me com o mais profundo das estranhas, e já me fez afastar-me de amizades e levantar-me de mesas e sair.
Detesto ser encaixada dentro de caixas quadradas, limites que me colocam. A minha mente é ilimitada. O meu corpo tem limites: as rugas instalam-se e ele já não faz sempre o que nos queremos. De resto, colocarem-me dentro de caixas e de limites…não, obrigado.
Mas, indo para além do género e do sexo, independentemente de eu andar para aqui dentro do meu “fato de carne” com pénis ou vagina, sou um ser humano, e para muitas pessoas, ir a algum sítio sozinho continua a ser problemático. E até confuso.
Continuo a questionar-me sobre isto (até porque já escrevi textos anteriores sobre assuntos semelhantes) e a resposta é sempre, aquele velho cliché que parece custar a interiorizar: se eu não gostar da minha companhia, quem gostará?
No meio destes pensamentos, lembrei-me de uma expressão muito frequente quando se conversa de relações humanas em geral e relações amorosas em particular. Cedências.
Cedências.
Odeio a palavra cedências. E odeio o que ela representar para quem a diz. “Ah...numa relação tem de se fazer cedências” . Passada a revolta inicial, dura pouco, ocorre-me uma citação que li em tempos, não sei bem de quem, que dizia que uma relação (seja de que tipo, mas apliquemos aqui às amorosas), uma relação nunca deverá retirar nada à pessoa. Vem simplesmente acrescentar, sem interromper, sem perturbar, vem natural e fluidamente melhorar a vida da pessoa.
É este o meu conceito de relação. Claro que há entendimentos, acordos, negociações (e, nas minhas tertúlias sobre estes temas, há também quem não goste desta palavra, negociações, por achar que ela é fria, mas a negociação conjugal é das coisas mais saborosas que já experimentei…), mas NUNCA cedências.
Só o mero facto de eu Ceder, significa perder algo, e perdas nunca são esquecidas. Eu posso chegar a um acordo sobre algo, mas se eu sentir aquilo como uma perda, como uma cedência, nunca mais a relação será a mesma.
Nas minhas relações, eu já tomei decisões que poderiam, aos olhos dos olhos, ser cedências. Mas aos meus olhos, não foram. Às vezes, a brincar, costumo dizer que tive problemas amoroso-geográficos: já me mudei para 350 km e numa outra vez para 8000 km de distância, um pouco porque a minha cara-metade (da altura), queria muito fazê-lo. Nunca foram cedências. Foi negociado, acordo, e foram experiências maravilhosas. Deixei-me levar pelo que a vida me oferecia.
E isso faz-me lembrar uma fantástica frase do filósofo Agostinho da Silva que alguém me referiu recentemente e que se calhar, já a citei em outras alturas. É algo do tipo: “não faço planos para a vida para não estragar os planos que a vida pode ter para mim”.
Que alguém da geração anterior à minha ou duas gerações para trás, me diga que uma relação só pode ser feliz se houver cedências, eu até entendo. Respiro fundo e calo-me, por respeito. Que alguém que tenha agora entre 25 a 35 anos me diga algo, fico preocupada. Num mundo cada vez mais global (e não vamos discutir estas implicações), não faz muito sentido o “Settling”. Saddling ?
Não consigo arranjar palavras para traduzir isto do “Settling”. “Don´t saddle for less”. Não te acomodes com pouco?! Será a melhor tradução? Não te deixes ficar…não te acomodes. É difícil traduzir.
E, portanto, quero tudo o que quero, e “mai nada”. Posso ter, posso não ter, posso conseguir posso não conseguir, não é essa a questão. A questão é que posso querer. Tenho o direito de querer atingir tudo o que eu quiser.  Tenho o direito, se não o dever, de o visionar,  de lutar por isso. Se ninguém pensasse assim, o mundo seria ainda rural, e não existia nada do que hoje criamos.
Criar, melhorar, mudar, crescer, implica sentir-se no direito pleno que querer, de visionar um futuro. E com isto, não digo que faço planos para a vida, porque cada vez os faço menos. OU melhor, cada vez os meus planos são menos materiais e estruturados, e mais orientados por sensações e intuições.  Demorei muito tempo a conseguir afastar-me do racional excessivo que planeava tudo e, logo, gerava expectativas por tudo. Agora, regem-me as sensações. Quero sentir as sensações de amor, de paixão, de liberdade. Sejam ou não reais para os outros ou aos olhos dos outros. As sensações são só minhas e ninguém tem o direito de as julgar.
Por fim, numa conversa antiga com amigos, uma pessoa comentou que determinada pessoa estava a ser usado, que não estava feliz, que estava em X ou Y situação, que estava a ser isto e aquilo, e estava cego, porque não via o que se estava a passar, porque estava a ser manipulado, porque não era a pessoa que dantes era….O que outros interpretam é sempre uma gota no oceano e não chega nem aos pés do que quem está na pele da sua vida, sente. Como psicóloga, depois de anos de treino especifico, sabemos identificar situações em que uma observação externa pode ser útil. Mas acima de tudo sabemos analisar narrativas. E duas pessoas diferentes, me situações exactamente iguais, têm narrativas completamente diferentes. E isso remete para o que a pessoa sente, como sente, que sensações experimentar. E só isso importa. Os dois pontos de vista sobre uma mesma situação, podem ser diametralmente opostos e determinar a nossa sensação de felicidade ou infelicidade total. Cedências…ou …acordos. Se a narrativa é a das cedências, ela remete para perdas. Se a narrativa é dos acordos, dos encontros, ela remete para ganhos mútuos.