Sunday, April 23, 2017

À Espera do Cliché

A espera do cliche

Sentei-me em frente a estação de comboio. Saquei da marmita. E deliciei-me  comer um salada de courgette spirulizada com salsichas de tofu. Temperada com vinagre balsâmico. No meio do nada. De face a garfo. Pessoas passavam. Olhavam. E eu sorria.


Adoro a palavra cliché.

“Cliché (do francê), em tipografia, diz respeito a uma matriz gravada em placa metálica e destinada à impressão de imagens e textos. Aplicada em sentido figurado, a palavra tornou-se sinónimo de tudo o que já foi objeto de repetição excessiva e perdeu a originalidade. Assim, 'clichê' também pode significar uma ideia que se repete com tanta frequência que já se tornou previsível dentro de um dado contexto. [Fonte: Wikipedia]”

Acho que ninguém nunca deve ter comido, neste banco, em frente à bela estação de Campanhã, uma salada de courgette crua espirulizada, com salsichas de tofu, certo?

Uma das maiores desilusões nos relacionamentos interpessoais acontece-me quando me apercebo que as pessoas são, na realidade, uma fonte constante de clichés.
Como sempre, esta reflexão é minha e apenas​ minha. Apesar de ser cientista, e regularmente citar ciência, o objectivo aqui é meramente egoísta, literário, catártico.

Começo a relacionar-me com outros seres humanos, porque a acho ou sinto que a relação vale a pena. Seja ela profissional, de amizade ou amorosa. Se não achar que vale a pena, fico sozinha.

Mesmo. Sozinha. Na solidão pacífica. Não numa solidão de revolta. Uma solidão que é “solitude”, se quisermos criar um neologismo para uma solidão que é positiva, é calma, é grata. É cheia de sabedoria e de proteção da nossa emocionalidade. É sobrevivente, é respirada e sentida com consciência.

Talvez eu já esteja num nível quase patológico quando digo que...Mais cedo ou mais tarde as pessoas nos vão desiludir. Talvez. Tenho consciência disso (e o facto de ter consciência e reflectir sobre isso, retira alguma probabilidade do seu carácter patológico).

Na minha área científica, lido com milhões de clichés, diariamente. Ideias-feitas, preconceitos. Por muito que passemos anos a conduzir investigação cientifica, creditada, validada, revista por pares, trata-se de uma área onde a população em geral tende a desrespeitar a nossa competência cientifica quase todos os dias. Por isso, adquirimos competências de protecção pessoal e profissional, de afastamento de pessoas que simplesmente não respeitam a competência adquirida. É curioso que, se formos a um médico ou a uma contabilista, aceitamos quase cegamente, à primeira, a sua competência cientifica! (Só se ele/ela cometer um erro, é que corremos, eventualmente!, para uma segunda opinião). Se um psicólogo, um profissional do desporto, um assistente social, um sociólogo, às vezes até, um terapeuta de qualquer tipo, ´fornece um esclarecimento cientifico fundamentada, infelizmente (e coontinua a ser difícil compreender porquê!), esse profissional tende a ser rapidamente contrariado pelo leigo. O Leigo … carregado de clichés, se pseudoinformaçao retirada à pressa do primeiro post do facebook ou de um blog, cheio de ideias feitas da sua observação (dos 20 km2 em que vive e das 30 ou 100 pessoas que observa)…
Enfim.
Os clichés dominaram a vida humana. E hoje apercebo-me profundamente, que essa é a real fonte das minhas desilusões.
E estou consciente também, que as desilusões nascem das expectativas que criamos.
Criamo-las porque projectamos o melhor que achamos que aquele ser humano pode ser. Porque acreditamos que aquele ser humano pode ser perfeita...Ou quase. Perfeita nas suas imperfeições. E que podemos amar plenamente essas imperfeições. E, de alguma forma, criar essas expectativas, é um grande elogio. Não criamos expetativas acerca do potencial de pessoas sobre as quais não acreditamos.
Há diferentes tipos de expetativas. Eu tenho uma expetativa principal na minha relação com outros seres humanos. Que eles e elas não se tornem num clichê. Ou, pelo menos, não sempre. Cliché. Rotineiro. Igual a todos. Cabritinhos e escravos de práticas comuns. Em todos os campos. Em todas as variantes. Sem pensar. Seguindo sem ter consciência que está fazer o mesmo que todos.

Vivemos em sociedade e, logo, há situações em que temos mesmo de ser (ou pelo menos demonstrar que conseguimos ser!) seres socialmente enquadrados. Temos de pertencer. Temos de participar. Uma necessidade enorme de validação De me juntar a um grupo que “organize” a minha vida mental, me forneça já os valores prontos em pacote, que me aceite, que me reassegure que me encaixo. Que não sou diferente. Que sou especial de alguma forma, porém, no fundo, igual a todos os outros que seguem a manada.

Mas devemos ser críticos. E aí mora o centro de toda a questão. Pertencer para se validar. Pertencer a um grupo porque é uma elite. Entrar em algo porque é chic. Usar determinada marca para validar a autoestima. A pertença social.

E depois há situações em que nem se apercebem que estão a ser um clichê. Que estão a ser iguais a todos. Que não há diferença. A diferença é apenas e só um número de cartão de cidadão. O Fenótipo eventualmente. Tudo o resto é copy-paste.

O Tempo flui e pensamos que aquele relacionamento é realmente rico. Que aquela pessoa não vai ser um clichê. Ou, se for, será numa pequena coisa, inevitável.

E quando menos esperamos...cai que nem uma bomba. E caímos na realidade.

99% do ADN é igual.  A cultura é a mesma. A mente predominantemente acrítica é semelhante.
Qual a probabilidade real da pessoa abrir a mente, isolar-se numa solitude exploratória e pensar por si mesmo?!? É baixa. Lamentavelmente baixa.
Para mim, isto é claramente falta de silêncio consigo próprio/a. De exploração profunda de si. Das suas motivações, das suas pulsões. Só vivendo isolado consigo conhecer o meu real eu e separá-lo do eu que foi sendo construído socialmente.

Estou rodeada de clichês. E há uma profunda dor que reaparece. Uma dor que se materializa. Que se somatiza no mais fundo das minhas entranhas.  E me causa nojo. Essa emoção que os cientistas sociais apelidam de "aversão ".
E Dor física mesmo. Porque vou ter saltar fora do cliche, mais uma vez. Essa é a Solução.
Afastamento que dói. Dói profundamente. Porque validamos os medos. Porque já sabíamos que ia acontecer. Porque estávamos a espera. 
Não à espera de Godot. À espera do clichê. Validamos...Ou tratava-se tudo de profecia autorealizada? Não sei. Temos de sair, porque apesar de doer sair, dói mais ficar.

Obviamente, todos temos de ter de viver com clichês. Morar numa casa, ter um emprego, ganhar dinheiro, comer, dormir, Blabla. Inevitáveis. The basics. Poucos são os que realmente têm coragem de sair desses clichés. Coragem de "sair da matrix".

Mas dentro do (talvez pouco!) em que temos alguma margem de manobra... Porquê?! Porquê ? Tornamo-nos seres assim tão receosos da diferença? Do ridículo? Porque todos caem no mesmo?!

Consigo mapear e redigir conversas inteiras que vou ter com alguém num futuro próximo!!! Somos assim tão previsíveis? Temos consciência que somos seres totalmente padronizados?!!? Será possível que o córtex cerebral que desenvolvemos durante tanto tempo, não veio realmente acrescentar nada?!? Um animal irracional, consegue ser mais criativo, mais imprevisível e menos cliché do que o animal humano?!? A racionalidade é sinonimo de previsibilidade? O velho “animal de hábitos”?

Com tanta inovação e criatividade tecnológica, continuamos , no campo humano, na nossa vida, connosco próprios e com os outros, em todo o nosso potencial... a ser totalmente iguais a todos os outros?!?!?

Não deve ser difícil concluir que esta pessoa que escreve esta reflexão, tem poucos amigos/as verdadeiros..
E eu sei que, no final das contas, talvez a minha alergia profunda a clichés, já comece a ser um cliché em si mesmo…

Na espera do Godot, toda a espera é tao extenuante que o protagonista a certa altura reflecte que apenas a morte seria a única salvação daquele inferno.
Já não espero pelo fim dos clichés. Esaa pura  VIDA, radiante de originalidade, em que nenhum humano quer ser igual ao outro. Não se importa de ser “ridículo e até, a palavra ridículo deixa de ter este peso.

Talvez o pior que nos possa acontecer é mesmo passar a viver à espera que o cliché chegue. Viver como se tivéssemos a profunda, a certuza absoluta, que trata-se apenas de uma questão de tempo. Como o comboio. Está previsto chegar as 19h. Se não chegar, chegará as 19h07, ou horas depois ou dias depois, contudo, mais cedo ou mais tarde, se esperarmos calmamente na plataforma, ele chegará.
E as pessoas e seus clichés também.
E eu não sou imune. A única diferença é que, eu identifico o cliché em que caio, dou-lhe um nome, torno-o lúcido na mente e, com isso, vivo com ele. “Desta vez não consegui, para a próxima procuro alternativa”…

Nestas alturas, em que a espera do cliché se torna extenuante, algo se transforma, e uma dor física e psicológica constante emerge, como se vivessemos debaixo da guilhotina, e sabemos que ela vai cair a qualquer momento. A cada minuto vivido, temos certeza que o cliché chegará. Sabamos-lhe o cheiro, a data, a hora, às vezes até, as palavras exactas ou o gestos. E temos de viver estes dias de tédio. Esta palavra maravilhosa: Tédio. O tédio de saber que o cliché chegará.

Consola-me apenas o meu amigo Fernando. O meu Godot sem clichés. Porque quem esperei, mas que chegou e ficou.

"O isolamento talhou-me à sua imagem  e semelhança. A presença de outra pessoa - de uma só pessoa que seja - atrasa-me imediatamente o pensamento, e, ao passo que no humano “normal” o contacto  com outrem é um estímulo para a expressão e para o dito, em mim esse contacto é um contra-estímulo, se é que esta palavra composta é viável perante a linguagem.
Sou capaz, a sós comigo,  de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com pessoa  nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem físico, perco a inteligência, deixo de poder  dizer, e, no fim de uns quartos de hora, sinto apenas sono.  Sim, falar com gente dá-me vontade de dormir. "
In “O livro do desassossego” . Fernando Pessoa.


Friday, February 17, 2017

Vulcão

No centro da extrema paz
desemocionada
desencadeia-se o arrepio.
O vulcão acorda, sem querer.
O querer não se reconhece,
não espera, não se deixa ser comandado.
E a emoção salta
ocupando a ribalta da alma,
que se queria em paz.
Como? Porquê? Por nada?
Um pequeno caos aterra.
Estremecem pedaços de pele.
Cada entranha do pedaço de carne andante que sou
entra em desassossego.
O vulnerável torna-se eu,
o eu torna-se vulcão.