Thursday, June 30, 2005

Verso


Já passou bastante tempo desde a última vez que "versei", livremente, sem rimas nem poéticas obrigatórias. Um exercício de escrita fabuloso.


Invejo-te do fundo das veias
Sem saber onde fui
Buscar esta capacidade de invejar.
Pavoneias-te pela vida como poucos
E por isso
Odeio-te.
A sério.
De um ódio só, puro e único.
Enches-me, preenches-me com este sentimento forte
Que apesar de negativo
Cresce e forma-se dentro de mim como um filho.
E eu amo-te.
Sem saber porquê.
Sem saber por que é que este ódio
Do teu pavoneio popularucho não corrói o meu amor por ti,
Não o destrói,
Não o contamina.
Sem saber.
De uma fúria dvorakiana
Retiro a vontade toda de te prender para
Que o teu ostento acabe.
E para que comece o meu.

Sunday, June 26, 2005

Sexo Anónimo

Escolhi esconder-me. Sou muito cobarde.
Sou cheia de falinhas mansas, e rodeios e tentativas falhadas de assertividade e levo sempre no corpo por causa disso.

Apercebo-me que falhei. Sou uma falhada total. Tenho uma licenciatura e não sei o que fazer com ela, meio doutoramento, meio marido (união de facto), meia casa (meio empréstimo pago), metade de tudo...e ainda nem cheguei ao divórcio.
Hoje apercebo-me que o mundo é horrível, que as pessoas são más e acreditem que não pensava nada assim até há umas 48 ou 70 horas atrás.

Há umas horas fui invadida por um sentimento tão aconchegante de felicidade, aquela felicidade que nos faz engolir em seco e pensar o quão estúpidos e intratáveis fomos durante tempos passados.

Penso muito em sexo, e masturbo-me, mas não me apetece ter sexo com mais ninguém, pelo menos para já; apetece, sim, embrulhar-me em fitas, e puxá-las para as sentir m,arcar-me o corpo, e estar comigo. Talvez seja o cúmulo da desconfiança, preferir ter sexo consigo próprio do que arriscar com os outros.




Se me mantenho anónima e gosto de me masturbar, talvez isto seja parecido com sexo com estranhos. Sexo anónimo.

Wednesday, June 22, 2005

Rasguei a roupa toda

Num acesso de fúria, poderia ter recorrido facilmente à violência. Contra algo ou alguém em quem descarregasse a minha hiper-frustrada alma, quero dizer. Mas o meu desejo de requinte chamava, e se tivesse à mão o quadro da mulherzinha dos Ferrero Rocher, tê-lo-ia destruído com muito prazer. Mas não tinha. A violência requintada que eu desejava teria de ser aquilinamente preparada e, no entanto, espontânea [Isto agora até parecia aquelas descrições inúteis de coisas estúpidas que se fazem hoje em dia, do género adjectivar profundamente os perfumes, os vinhos, as combinações de peças de roupa naqueles programas de "querido, mudei de roupa..."].

Umas gavetas minhas continham roupa antiga e, li em algum lado que isso impedia o fluxo de energia na casa [Consultor XPTO de Fenf-Shui que escreve para uma daqueles revistas femininas, que apetece ler quando a progesterona chama] e decidi resolver ambos: o meu acumular de desejo requintado de violência e o acumular de energias negativas na gaveta. Mas o acto teria de ser especial: Tesouradas! Fortes e feias! Tesouradas do tipo Eduardo Mãos de Tesoura.

A coisa resolveu-se!
[É impressionante o meu desejo de requinte de violência e a quantidade de palavras que se consegue escrever sobre este acesso de fúria!]
Infelizmente para mim, descobri há pouco tempo, numa visita a um shopping, que a roupa que pûs fora, toda [artísticamente] TESOURADA, era também modelo de uma nova colecção de Senhora em várias marcas de renome.

Lição de Moral: O Artista não é o que é capaz de fazer, mas o que se lembra de o fazer primeiro.

Monday, June 20, 2005

Apaixonar

Talvez a palavra apaixonar seja das mais bela do léxico português. A sua força, o seu ar trágico misturado com um certo pacifismo de fim de palavra. Pena que o fim, na realidade, esteja sempre mesmo muito perto. A paixão começa e, logo de seguida, o fim é vísivel, decifrável, adivinhável.
Depois, passamos o resto da nossa vida com uma coisita chamada amor. É muito justo, está tudo ao contrário. Primeiro devia vir o amor, e depois a paixão. Assim é que era. Sentir aquela coisa que nos invade, sem que percebamos muito bem de onde vem, que nos faz querer resperirar fundo de cinco em cinco minutos, que faz mal, e faz doer o fundo do mais fundo do estômago, mas que fornece as emoções humanas de melhor qualidade.
Não é possível viver apaixonado. Nem sequer enamorado. Flutuamos por uma ou outra coisa, egoisticamente, conforme nos bem parecer e nos apetecer.

Saturday, June 11, 2005

Limiar

Às vezes,muitas até, sinto-me a roçar o limiar da estupidez ou talvez da loucura. Sinto que em momento que desligo da terra, ficando mais conectada comigo mesma, corro sérios riscos de passar "para o outro lado" e não voltar mais. Onde está esse limiar entre que é são e doente, normal ou anormal? Porque é que a sociedade sanciona os loucos, se são eles que mais contribuem para que ela ande para a frente? A hipocrisia social. A pseudo-loucura, camuflada.

Funeral

O nosso funeral, ou tentar imaginá-lo, é o evento de maior importância da nossa vida. Se pudessemos observá-lo (não é saber a sua data!), conseguíriamos obbter directrizes para reflexão sobre a forma como estamos a viver cada momento da nossa vida. Nada disto é morbidez, mas análise empírica.Gostaria muito de ter a oportunidade de observar, hoje e agora, o meu funeral: quem lá está, o que veste, quanto chora, quem contradiz os meus desejos finais, etc.
Gostaria de chorar no meu funeral...chorar de mim própria?


Gota de água, de António Gedeão

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
as lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.

NOTA: Por favor, não tenham o mau gosto de passar isto para riso.

Wednesday, June 08, 2005

Pseudo-EU

Desisti este mês de uma boa parte de coisas e dediquei-me ao ódio a tudo. Parece mais fácil e confortável para já. Choro bastante, talvez 1 hora por mim, alternada ou consecutivamente, por diversos motivos. Arranjo sempre motivo, por acaso. Às vezes, confesso, existem momentos em que tenho de respirar fundo e procurar um outro motivo rapidamente, antes de perca a vontade de chorar, muito rapidamente, antes que (com o calor), a última lágrima dê indícios de que vai começar o processo de secagem e, subitamente, lá salta no cérebro uma memória ou duas, daquelas bem tristes e deprimentes e, aí, aí, sim, sinto-me feliz. Consegui qualquer coisa. Até ao fim. Consegui ir até ao fim.

Tenho uma questão com "Fins". Não acabo os cremes ou os desodorizantes até ao fim, não sei pôr fim a relações, não sei dar um fim a posts, histórias, romances. Por isso, gostava de continuar a chorar e chorar. Talvez chorar seja das coisas mais verdadeiras a fazer nesta vida. É deixar cá. na terra, um pedaço de nós (lágrima) no qual depositamos imenso sentimento, um sentimento das profundezas, das estranhezas, que nós próprios desconhecemos.

Por isso acho que todos que não choram, têm pseudo-eus. E aqueles que começam com as histórinhas do "vive", "curte a vida", e etc. são os piores. São na realidade os menos verdadeiros, os que menos choram, os que menos vivem.

pseudotudo

Chego à conclusão que é inevitável aderir. Aos blogs. A tudo. Traio-me a mim própria para agradar aos outros. Não pela primeira vez, mas sinto como se fosse, na realidade, a perda da virgindade.
Crio um blog pelos motivos errados.
Pelo ódio. Pelo mau-estar da sociedade.

Por achar que tudo é pseudo.
PseudoTudo.