Friday, February 03, 2006

Odeio "putos"

Anatomia do berro

As crianças são berrentas e birrentas.
Elas correm, saltam, brincam,
Aparentando felicidade,
Mas na verdade,
Tudo são gritos.
Não posso com guinchos.
Porque não são calmas? Porquê?
Os berros percorrem o ouvido,
Massajam-no brutalmente,
Até eu perder o equilíbrio!
A minha cartilagem endurece,
O cerume é violentado
E aquele som da gritaria
Entra pelo labirinto
Para ser decifrado,
Mas afinal... são só berros.
São gritos.
Martelo, bigorna e estribo
Abanam-se todos,
E sinto o meu corpo a tontear!
Tenho de me afastar!
Vou para longe.
Oh, ao longe quem diria!
Tudo parece mais belo….
Ah, os gritos, que invadem o ceú e
Se desfazem nas nuvens!
Que vozes, que sons, que timbres belos
Atingem as crianças!
Estravazam as suas pequeninas almas
E elevam-se à nuvem mais harmónica.
Correm, saltam, brincam
Os sublimes rebentos
Com estratégica distância,
Não são nada berrentos!

1 comment:

Nádia said...

Também detesto o barulho de crianças, ou de adultos, mas tenho que te contar uma história.
Num daqueles dias que parece que não conseguia aguentar o peso do sufoco que sentia e as lágrimas começaram a cair dentro do autocarro, sem que conseguisse fazer alguma coisa para para-las, reparei para maior solidão ainda, que ninguem reparou que chorava.
Contudo uma menina com uns 4 anos reparou e agarrou-me num dedo e deu um sorriso.
Por muito estupido e irracional que pareça, até para mim, senti que as crianças podem ver coisas que os adultos escolhem não ver, que elas não tem medo do sofrimento, mas acima de tudo senti a tristeza acalmar, como se Deus estivesse ali, no sorriso de uma criançpa, para me salvar de mim mesma.