Wednesday, November 26, 2008

A África prometida: Tombwa (Namibe)















22, 23, 24 e 25 de Novembro

Finalmente, um fim-de-semana passado fora de casa! A África prometida. Anteontem, Sábado, partimos em direcção ao Namibe.
Ao fim de uma hora e trinta minutos, chegamos. A viagem do Lubango para o Namibe implica passar na serra da Leba e fazer as torneadas estradas cuja foto mostrei aqui no blog, há algumas semanas. Depois da serra da Leba, podemos contar com grandes e longas rectas de estrada de boa qualidade, que no entanto, devem ser atravessadas durante o dia, pois não existe iluminação, o que poderá trazer graves problemas, principalmente devido a animais que por vezes atravessam a estrada (não há rails) ou camiões em apuros (pois não há guias ou espaço de paragem em paralelo à via, que só tem uma faixa).
Durante a noite, após petiscos, fomos caminhar pela beira-mar, na marginal do Namibe. Que praia terá sido no passado! As palmeiras, o calçadão e algumas construções do tempo colonial indiciam que se trataria de um pequeno paraíso. Casas de banho publicas na praia, bancos para relaxar em frente ao mar, adereços encurvados de cimento colorido ao longo do calçadão, etc.
A caminhada a pé até ao porto marítimo serviu para conversas nostálgicas e para perceber a riqueza das histórias de vida de muitas pessoas que nasceram nos PALOP’s e que depois viveram e trabalharam em Portugal, tendo mais tarde regressado, no caso, a Angola. Pessoas que viveram numa época conturbada mas rica, cheia de ideias e ideiais, políticos e cívicos.
Depois de uma noite de sono curto, às 07h00 e pico da manhã o grupo preparava-se para partir. Após o café da praxe, navegamos em direcção à zona (e vila, provavelmente) e Tombwa.
De caminho, paramos apenas para fotografar as Velvichias, plantas única no mundo (ver foto). Conseguem sobreviver neste pequeno deserto…

Tombwa é um local relativamente pequeno, essencialmente caracterizado pela grande quantidade de indústria piscatória que existiu (pelo forte cheiro a peixa, talvez exista ainda algo, mas muito pouco). A população tomou as instalações das indústrias abandonadas para suas casas e, ao que parecem, vivem e sobrevivem à custa do peixe.
Numa tentativa de ir visitar um braço de areia (pequena restinga do Tombwa), acabamos por enterrar a carrinha e ter de esvaziar os pneus um pouco de forma a poder sair (truque que desconhecia, claro!).

As crianças tentam apanhar boleia da carrinha (ver Foto), cercam-nos, sorridentes pela (provavelmente) grande atracção do dia…estrangeiros atolados! Havia comprado um pacote de bolachas para entreter durante a viagem e, ao ver em particular um criança de 5 ou 6 anos com outra às costas (do mesmo jeito maternal que as mães carregam aqui os filhos, usando um pano [provavelmente a Samakaka, pano com estampado típico da Huíla] que atravessa o corpo debaixo do peito e faz com que a criança vá sentada encostada às costas da mãe), decidi que ia dar as bolachas…
Alguém perguntou:
- Então, de quem é esse bebé que trazes? Não és pequenina para carregar um bebé sozinha nas costas? – a criança, abanou as missangas do cabelo, afirmando que não – Então, é teu irmãozinho? - Sim, respondeu, com o dedo na boca.Perguntei ao grupo de 8 talvez nove crianças, -Quereis Bolachas?, -Sim, responderam em grupo de imediato. Comecei a distribuir bolachas, enquanto as contava e todas as crianças começaram a contar comigo, numa só voz: -Uma, duas, três…Muito bem, pensei e disse, pensei também que se tratava de um momento educativo que um psicólogo não pode desperdiçar! Contamos todos até dez e depois o grupo começou a engasgar…Ocasionalmente um ou outro lá sabia o doze e o treze, e entretanto, lá para o 15, acabaram as bolachas. Ainda deu uma segunda rodada para alguns, outros tentara enganar-me dizendo que ainda não tinham bolacha, - E estas migalhas na tua mão são de quê? - disse eu, com jeito malandro e elas faziam um sorrisinho encabulado e continuavam a estender a mão…
Partimos para conhecer mais detalhes. A cidade esteve semi-vazia até que de repente, talvez por volta das 11h todos começaram a aparecer na rua, uns com as cadeiras às costas (para ir para algum sitio onde não havia cadeiras, aliás, pratica comum nas escolas por aqui, pois as crianças levam as suas cadeiras!), outros muito bem vestidos, de vestidos e fatos, com folhos e cores berrantes, uns em grupo outros sozinhos, todos a dirigirem-se para algum lado, porém todos em diferentes direcções.
Era Domingo. Era dia de missa. Numa cidade tão pequena existem pelo menos 5 tipos de igrejas diferentes: A Igreja Pentecostal e/ou Evangélica (não me recordo bem), a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Católica, etc. Lembro-me de alguém no carro comentar algo que me ficou marcado mas cujas palavras não lembro. O conteúdo reportava a algo do género…”numa cidade de tal forma isolada e pobre, realmente só a busca espiritual os pode ajudar ”
Depois de reencher os pneus com alguma dificuldade numa bomba de gasolina (aliás diga-se, bomba de gasóleo, pois esta só vendia gasóleo e a outra, do outro lado da cidade, só vendia gasolina!), partimos determinados a encontrar um local “típico” para petiscar.
Na bomba observei este jogo de damas improvisado (Ver foto), o que me lembrou da primeira vez que aprendi a jogar damas com o meu avô. Como não tínhamos tabuleiro, o meu avô rapidamente resolveu o assunto: a mim, criança, talvez nos seus 10 anos, colocou-me a pintar os quadrados numa folha de cartão, enquanto ele, foi buscar umas rolhas que cortou com cuidado às fatias, tendo pintado numas uma cruz e noutras nada…e já tínhamos as pretas e as brancas!

Reparem que, em muitos outros sítios do mundo (nomeadamente Portugal), isto não acontece. Penso que já aconteceu. Hoje, talvez os gasolineiros ouçam o relato de futebol ou tenham TV, mas não jogam damas. E logo damas.
O local típico foi o “Bar Virei”. Um amontoado de história de Angola, com particular atenção para algumas tribos da Huíla. Mesas numeradas, bebidas e dinheiro (notas) de todo o mundo, máquinas fotográficas dos anos 60 ou 70, Velvichias secas, poemas esculpidos em pedaços de madeira, estatuetas diversas, quadros pintados a carvão com retratos tribais, cadeiras e bancos esculpidos à mão (cada um personalizado com o seu animal ou desenho tribal) e, só no fim, reparo na palavra PUB por cima do arco à entrada, o que me indicia influência britânica ou sul-africana.
Entre a parafernália, destaco esta foto e reflexão: “E afastou-se para o deserto em busca da verdade”.

Os petiscos foram: moelas, caranguejos e cherne grelhado. Por volta das duas horas da tarde saímos em busca da tão almejada praia, pelo menos por mim. O ar da maresia já me havia acalmado na caminhada da noite anterior e fez-me esquecer um pouco as saudades e as preocupações profissionais e relacionais, implícitas no arrancar de um projecto novo num país a 8 mil quilómetros do meu…
Mas eu, que me julgavam por vezes tão cosmopolita, ainda sou a poveirinha que nasceu ao pé do mar e desejava brutalmente sentir o meu corpo ser abraçado por um oceano. Um oceano qualquer, de preferência mais quente que o da minha terra.
Foi no caminho de volta que vimos o sinal “Flamingo Lodge, a 23km”. Ficamos a pensar se seria mesmo a 23 ou a 2,3 km, porém cedo percebemos que iríamos fazer os vinte e muitos, numa picada de nos fazer saltar do banco. Por entre velvichias e planaltos que pareciam saídos de um western, seguimos parcialmente por um leito de um rio seco.
Em vinte e cinco minutos conseguimos entrever, ao longe uma pequena cabana no alto de um planalto e rimos. Mas assim que chegamos, respiramos fundo. Um arco recebia-nos à entrada e subimos dezenas de escadas para encontrar uma cabana de madeira, perfeitamente equipada, com uma agradável cozinha à vista, toalhas estampadas, esplanada ao sol e no interior, um envidraçado cm vista para uma praia extensa e deserta. O bar do Flamingo Lodge parecia saído de uma série americana da Califórnia, Malibu ou Hawai, mas o areal deserto e amplo era a África prometida.
Depois de um café saboroso e de uma pequena conversa com a gerente sul-africana (em inglês um pouco enferrujado), fomos até à praia. Eram três da tarde, mas mesmo assim, barrei-me com protector. Tentei encontrar um diamante perdido entre as rochas, mas trouxe apenas pedras. Ainda não foi desta que encontrei o diamante. Finalmente, consegui entrar na água depois daquele impacto e receio inicial. Era morna. O mar estava revolto, eu não entrava num oceano há pelo menos 3 meses, e estava a entrar pela primeira vez em águas africanas daí os receios. Deixei-me envolver nas ondas. Sentia finalmente as narinas a serem hidratadas (depois de muita secura nas primeiras semanas no Lubango), o sal a escorregar pela boca, os músculos dos ombros a descaírem em direcção ao chão. Era como se estivesse em casa. Com melhoria substancial da temperatura.

Enquanto voltávamos o romance que a minha cabeça tem vindo a escrever continuava. Já há semanas que anseio voltar à escrita, mas parece que a vida e o universo não o querem de alguma forma. Deixei então, que pelo menos na minha cabeça, esse romance se fosse escrevendo, entre as paisagens e escarpas imensas, o ser catapultada dentro do carro, o vento a levar o cabelo para toda a parte (foi um feliz dia sem ar condicionado!), o pó da areia fina e do salitre por toda a cabine.


Já na Tundavala foi possível ficar sem palavras, respirar profundamente e sentir um vazio que dava vontade de morrer. Como se nesta vida, não fosse possível sentirmo-nos assim de novo e como se não valesse a pena correr para viver, ou viver a correr. Mas foi nestas montanhas, entre o Tombwa e o Namibe, em que perdemos noção da distância a que estamos das montanhas pastel, em que os olhos parecem iludir-nos que as palavras começaram a jorrar para o meu romance. Passado uns minutos pensei na tese por terminar e acabou o transe em que estava, talvez o nirvana…


Aqui seguem as restantes fotos...
Beijos e muitos abraços a todos!

2 comments:

Anonymous said...

Sá da Bandeira, Moçâmedes, Porto Alexandre, Vila Arriaga, Camucuio, Virei, e mucubais e mamuilas e gado e as quedas da Hunguéria e mais os lacetes da serra da Leba, e mais a miss Riquita e o Benfica do Lubango, foi demais, por isso tinha que terminar.

Para mal de toda a gente.

Paradoxos said...

um dos blogs mais interessantes que descobri nos últimos tempos...


belo em conteúdo!!


abraços