Hoje, oficialmente lancei o meu livro. O que começaram por ser umas notas para entregar aos estudantes, rapidamente se transformou num livro. Comigo, é sempre assim. Acho que algures no tempo perdi a capacidade de escrever três palavras apenas...
Mas tenho orgulho. Decidi deixar sair a escritora que vive em mim desde os 10 anos. Com essa idade, mostrei um poema ao meu professor de português, que ficou delirante e me incentivou a escrever mais. Porém, as pressões externas foram tais, que em breve, fui "abaixo". Escrevi muitos contos, muitas short-stories, muitos blogs, muita literatura infantil e as gavetas ficava cheias. Cheias com as obras e cheias de cartas de editoras a dizer que aquele não era o momento ideal, ou que não estavam previsto no plano editorial, e mais uma imensidão de desculpas.
Em casa, ainda guardo essas cartas todas. Mas agora quem manda sou eu. Graças ao Hugo Mota, da HM Editora, pude finalmente lançar o meu primeiro livro. Um especial obrigado pelo interesse, atenção e dedicação deste editor!
"Ser Psicólogo" é uma reflexão pessoal mas de cariz técnico-científico. Mas tem muito de mim. Sou escritora, de alma e coração, e agora que comecei não vou parar.
Por fim, os agradecimentos muito especiais à minha grande amiga e psicóloga Prof. Dra. Rosina Inês Fernandes, por ter aceite escrever o fabuloso Prefácio do livro! Abraços!
Não há melhor forma de perceber o provérbio “a necessidade aguça o engenho”, do que realmente passar pela situação de ter pouco.
Já vos aconteceu uma tábua de ferro simplesmente reintegrar-se? Cair ao chão cada vez que tentam passar a ferro uma peça? Gingar como uma doida? E já vos aconteceu sentirem que pagaram por um produto que simplesmente não presta? Pois, isso é comum aqui em Angola, e talvez noutros sítios. Toda a gente vende coisas a preços exorbitantes, tentando realizar lucro com produtos péssimos.
Então, o que fazer? Por a tábua ao lixo? Não. Desmontá-la. Aproveitar cada parafuso, cada dobradiça, e a própria tábua, que um dia servirá para algo. E sabem aquele suporte de metal onde pousámos o ferro? Para que poderá servir? Como reciclá-lo? Alguns segundos depois, o insight. Um cabine para lenços.
É assim o viver todo-o-terreno. Transformar coisas noutras coisas, libertar a mente das regras que a sociedade nos incutiu, levar o desenrasque ao extremo.
Como psicóloga, tomo consciência por vezes das alterações que isto provoca nos meus engramas cerebrais, nos caminhos que vinham formatos desde há muitos anos e que começam agora a encontrar outros caminhos para chegar ao resultado. Novas formações neuronais, “Breakthroughs”.
Muitas vezes tem isso acontecido nos últimos meses que estou em Angola.
E mais uma vez, estou sem televisão.
Desde que cheguei a Angola, em 2008, foram poucos os meses em que tive uma Televisão. Não sei o que seria de mim se não existissem filmes e música em formato electrónico. Mas agora, tudo depende de mim, sou eu que escolho.
Não me submeto às escolhas dos produtores de TV. Claro que tenho saudade de algumas séries e filmes e tenho saudade de simplesmente não fazer escolhas e ver o que me colocam à frente. Porém, tem as suas vantagens. Já há muito que havia decidido deixar de ver noticias na TV. Por vários motivos, sendo um dos principais o facto de estar a contribuir para o aumento de audiências e, logo, estar a passar a mensagem de que assisto àquele canal porque quero. Quando o pessoal das sondagens faz estudos, parte sempre desse principio: as pessoas viram, aumentaram as audiências, logo, devem tê-lo feito porque realmente escolheram ver aquilo! Não é verdade. Assistimos a coisas só porque sim, porque a TV faz companhia, o uporque aquele canal é mais sensacionalista ou porque passa as noticias da forma mais DRAMÀTICA possível.
Se deixarmos de o sintonizar, pode ser que eles passem a emitir as notícias positivas. E isso é algo que Angola ainda tem e espero que não perca. Quando ocasionalmente vemos um noticiário ou lemos um jornal existem muitas notícias positivas: projectos de sucesso, iniciativas com impacto positivo, pessoas que conseguiram grandes feitos, ou pessoas que conseguiram pequenos feitos…
A Europa afunda-se a olhos vistos, não tem crescimento económico, tem taxas elevadas de depressão e suicídio, e parece estar muito infeliz, porque dos milhares de eventos que ocorrem todos os dias, a comunicação social escolhe conscientemente noticiar apenas os que são drásticos, dramáticos e negativos. Porque descobriu que isso vende bem…
Um outro exemplo curioso. Em Portugal, quase todas as pessoas têm microondas. Eu também tinha e usava apenas para aquecer um leite ou descongelar algo rapidamente. De repente, quando me encontrei sem fogão, sem banca, sem cozinha em geral…o meu microondas passou a ser um soldado universal, pronto a receber qualquer tarefa! Faço Pizzas, bolas de carne, bolças vegetarianas, gratinados vegetarianos, bacalhau gratinado, bolos de coco para sobremesa, bolos de iogurte, enfim…agora tudo parece possível.
Agora tudo é possível. A mente está preparada para se adaptar. A mente já não diz que não é possível. Já não diz que não tem tempo, já não diz que não há condições, já não pensa que não há recursos. A mente simplesmente acredita que é possível e, logo, tudo será possível.
No domingo, segunda e terça-feira passados, fomos até ao Huambo. O Friozinho do interior já lembrava a minha terra, só faltava a corrente de ar do mar…
As fotos retratam pequenas visitas que fizemos. Senti-me a agir exactamente como um turista comum, com máquina fotográfica ao ombro e fotografar tudo o que me apetecia (o que me fez pensar que estou a precisar de férias, mas férias a sério, pois isto foi apenas um respierar fundo de 2 dias, uma escapadinha…).
No Huambo caminha-se muito bem, pela estrada, pelo parque da cidade, enfim, por todo o lado. Em particular no parque da cidade, foi muito bom ver tantas pessoas a ler e a estudar!
Jantamos muito bem, uma noite na Cervejaria Novo Império e outra noite no Jango Central. Ficamos pela segunda vez no Hotel Nova Estrela, que recomendo pela boa relação preço-qualidade.
Numa outra noite, decidimos tratarmo-nos melhor, e ficamos no que parecia ser um dos melhores hotéis da cidade e um dos mais recentes: O Hotel Tchimina. Como ex-hoteleira, não gostei. Foi preciso pedir o comando da TV, a porta do WC estava arrombada e não fechava, os quartos são requintados mas pequeníssimos, e o pequeno-almoço, já estava bastante desfalcado. Ao menos no hotel Nova Estrela tiveram a atenção de fazer ovos mexidos por pedido e tirar um cafezinho expresso no fim do pequeno-almoço! Dois dias pareceram quatro! Passear a pé e lanchar no Fountai Park (Como diz) o nosso GPS, soube pela vida! O tempo rendeu e senti o descanso.
À ida para o Huambo seguimos a estrada “Lobito - Alto Hama –Huambo” e, no retorno, viemos pelo outro caminho “Huambo-Caála-Ganda-Cubal-Benguela”. Recomendo o segundo devido à melhor estrada, mas a paisagem em ambos os caminhos é estupenda.
Quanto a reflexões mais profundas, tenho a dizer que nas últimas semanas tenho pensado muito na Gestão do Tempo. É um tema que trabalho bastante como psicóloga em diversas perspectivas, quer de formação intencionalizada quer do ponto de vista da intervenção em consulta psicológica.
Ultimamente, tenho prestado mais atenção a momentos que as pessoas utilizam a expressão “não tenho tempo”. É uma expressão que só me dou ao luxo de dizer a mim própria e pouco mais. Há muito que me esforço por eliminar essa expressão da minha narrativa de vida. Perturba-me bastante formular as coisas nesses termos, e penso que quanto mais vezes o dizemos, mais vezes o pensamos e, logo, o que pensamos e dizemos, realmente se torna realidade!
Cada vez mais concluo que tenho uma excelente gestão do tempo pessoal e profissional, e penso isto se explica pelo facto de eu achar que tenho sempre tempo para tudo e mais qualquer coisa! Porque a vida é curta e se o universo nos coloca oportunidades no caminho, como podemos recusá-las? No entanto, tenho de aprender muita coisa ainda e sei que, organizacionalmente falando, tenho de aprender a dizer mais vezes que não tenho tempo…se não o disser, como vão as pessoas saber que eu sou uma pessoa muito ocupada?...
Raios. É difícil começar a escrever um texto sobre a morte dos seres humanos. Há alguns meses, estava numa alegre conversa com um grupos de pessoas, que tinha acabado de conhecer havia pouco tempo. Eles tão pouco sabiam nada de mim (e talvez continuem sem saber). Depois de várias horas de conversa, a certa altura, já nem me lembro porquê, falei da morte.
Com a naturalidade com que se fala de couves, cortes de cabelo ou do último filme do Tarantino.
Quando não é, que uma das pessoas reage quase violentamente, dizendo “Como podes falar assim da morte? És tão mórbida”. Não sei quando foi que, os seres humanos, começaram a ter tanto medo da morte. Medo de envelhecer. Medo das rugas e da celulite. Medo das peles flácidas. Não sei. Mas isso assusta-me. Assusta-me que as pessoas se assustem tanto com a morte que nem sequer consigam dizer a palavra.
Mas nem sempre foi (ou é em todas as culturas!) assim. Há algum tempo atrás, as pessoas celebravam esse momento. O fim da vida. Em muitas culturas, faziam-se festas e acompanhava-se aquela pessoa nos seus últimos momentos. Não se fugia das pessoas moribundas. Não se lhe negavam os últimos momentos com os vivos. Os vivos não só têm medo da morte como têm medo de estar perto de pessoas que estão a morrer.
Alguém que fuja da morte, foge da vida. Alguém que tenha um receio forte da morte, vive a vida com muitos receios. Talvez seja palavreado de psicóloga misturado com a filosofia yóguica, mas é o que penso. E não é por não ter estado perto da morte, porque já estive. Aliás, há 100 anos ou menos, talvez estivesse mesmo morta. Se não fossem algumas técnicas da medicina actual, talvez estivesse mesmo morta.
Se no avião no qual regressei de Frankfurt (depois de estar num intercâmbio na Áustria), a “Cracking Window” (como dizia o comandante) tivesse “crakado” mesmo, eu não estava aqui (tivemos de voar bem baixo e retornar ao aeroporto de Frankfurt, debaixo de berros e pânico de todos os passageiros e vários membros da tripulação!).
E desejei morrer algumas vezes na vida. Eu compreendo se o leitor não me compreender. Desejei, do fundo de mim, que acabassem todas as preocupações e as dores de tantos tipos e desejei encontrar paz, e essa paz, parecia vir da parte. Nunca pensei suicidar-me. Mas pensei terminar. Simplesmente terminar. Não ser eu a desligar a Televisão, mas simplesmente a desejar que ela se desligasse. E, no entanto, quem me conhece minimamente, sabe que eu sou uma pessoa com grande paixão pela vida. Talvez, por isso, tenha grande paixão pela morte.
Nas últimas semanas tenho dois factos a registar. A Chica e o snorkelling.
Como podem ver pelas fotos, comecei a praticar snorkelling. Estou a adorar mergulhar. Com dizia o Hermínio um dia, parecia uma bond girl. No início foi difícil aprender a gerir a respiração, mas depois atingi uma paz subaquática inigualável. E posso dizer que ainda não vi nada da vida aquática, a não ser umas rochas e uns peixinhos a passar por mim. Sinceramente, ainda estou na fase em que, ver as minhas próprias mãos ou barbatanas, ou ver outra pessoa a passar por mim, me deixa num redemoinho de emoções!
Já fiz alguns quilómetros e mesmo assim o meu coração ainda dispara quando no meio do nada aparece um cardume de peixinhos pequeninos ou de repente, simplesmente aparece um enorme conjunto de rochas que mais parece uma cidade submersa…
E finalmente posso imitar o Darth Vader. Não há nada mais relaxante do que ouvir a nossa respiração debaixo de água…
Entretanto, fui a um restaurante, quase secreto, no meio do nada, a 20 km de Benguela. Lá encontrei algo já muito habitual. Macaquinhos presos para desporto dos humanos. Revolta-me profundamente este circo. Os bichos ficam ali, expostos, simplesmente sozinhos, marcados pelas coleiras ou cintos amarrados a correntes de metal…simplesmente, para nada! Fico doida. Alguém me compreende? Alguém vê a necessidade disto? Já me custa matar para comer, algo que evito sempre que posso, tentando manter um vegetarianismo dentro do possível (é mais fácil em Portugal do que em Angola), mas ter animais pelo espectáculo? Não há palavras…
Em especial os primatas. Os cães e gatos têm olhares muito humanos, mas os olhinhos de um macaquinho, são iguaizinhos aos humanos!
Então decidi ir brincar com a Chica, a macaquinha da foto. Saltamos, brincarmos e, a certa altura, decidiu “catar-me”. Esse acto de carinho para com o próximo. Chica desatou a tentar catar o “borboto” dos meus calções! Vêm na foto? Que atenção, que carinho e que capacidade de motricidade fina fascinante. Fiz um vídeo.
Como psicóloga, só pensava na evolução destes seres fantásticos e na forma tão humana que a Chica olhava para a máquina fotográfica! E o jeito que os bracinhos dela me agarravam…Foi uma experiencia óptima para mim! Infelizmente a Chica lá ficou, amarrada, escondida debaixo de um pedaço de metal, enquanto ouvia estranhos barulhos de carros…