Thursday, March 03, 2016

Espero na calma da noite.- Poesia

Espero na calma da noite.
Espero por mim.
Que eu chegue
Que me note
Que me desate
Me recomece.
O fim de mim já foi
Mas o começo nao chega.
Pacifico o meu eu
para que ele espere
Que o intermeio acabe
Para que o meu Eu comece.

Patrícia Araujo (2016)

Vazio

Do profundo vazio
Em que existo
tenciono renascer.
Sem caminhos pré -traçados
Sem ideiais
Sem pessoas.
Sem planos estruturados.
E um novo vazio surgirá.
Sem dor,
sem histórias,
sem inverdades
Apenas cheio de meus passos.
Escolhido, não imposto.
Eu serei a mesma,
Mas vazio será outro.

Patrícia Araújo  (2015)

Monday, February 01, 2016

Profissão: Vivente

Todos os seres humanos (espero eu!) passam por momento de reconversão, de mudança, de repensar as suas vidas.
Para mim, como investigadora, sempre foi meu foco profissional, analisar e procurar padrões e explicações desses momentos e dos subsequentes, no que respeita à carreira.
Depois de anos a investigar isso e a ter não sei quantos graus académicos sobre o assunto, pareço ter chegado à (brilhante?!) conclusão que o nós concebemos como trabalho, tem de perder a sua centralidade urgentemente.

Para uma grande parte das pessoas, ficar sem trabalho é um momento bastante perturbador. Podem pensar que  estou a falar dos rendimentos que advêm do trabalho, mas não, estou mesmo a falar só do trabalho.

Se não "tivéssemos" de trabalhar e se possuíssemos tudo o necessário para viver, o que faríamos? Nada? A palavra nada assusta muita gente.

Quer na prática profissional quer na minha vida pessoal assisto a muitas pessoas com medo do nada. Dizem, à boca cheia ..."ah, bom era deixar de trabalhar...não fazer nada". Mas quando se lhes pede para praticar o NADA por 5 minutos, não conseguem.

Como seria a vida, se simplesmente tivéssemos como profissão viver?

Vivens, Viventis (genitivo, do latim).

Profissão? Vivente. Que vive. Que está vivo.

Profissão? Amans, Amantis. Que ama.

Profissão? Respirans, respirantis. Que respira. Que existe.

Pensans, Pensantis. Que pensa. Que se dedica profundamente ao pensamento.

Estudans, Estudantis.

Observans...

Et cetera.

Percebe-se?

Parece fácil, mas não é.

Agora, resta-me descobrir como pagar as contas.

Saturday, January 09, 2016

Os auto centrados - uma nova sub-espécie humana

Um novo tipo de pessoas apareceu. Um novo perfil psicológico.

Os Auto-centrados.

Talvez seja uma forma elegante de os chamar egoístas, pensam os leitores. Mas não, não é a mesma coisa.

Há umas décadas, alguém egoísta, era até, de certa forma, elegantemente estratégico. Pensava apenas em si, não queria saber dos sentimentos ou pensamentos dos outros, mas socialmente comportava-se de uma forma controlada, disfarçando -digamos- o seu egoísmo, já que este era mal visto pelos outros (ou pela maioria pelo menos).

Os auto-centrados não são necessariamente egoístas e, muitas vezes, nem estratégicos e definitivamente não são elegantes nem preocupados com o que os outros pensam.

Só pensam em si, só falam de si próprios e conseguem manter (será, que consegue?) a longo prazo, amizades que conseguem aturar esta atitude.

E são muitos, acreditem.

Basta fazer um pequeno teste.

Conviva com alguém cerca de UMA HORA. Deve chegar. Ouça a pessoa e faça perguntas, interessadamente claro (como eu pensei que toda a gente fazia!).

No final de uma hora, contabilize quantas vezes a outra pessoa (amigo ou potencial amigo) perguntou algo sobre si. Exemplos Básicos "E tu, o que achas?", "E tu, o que tens feito?", como anda a tua vida, achas que sim, conta-me lá a tua visão, etc etc.... qualquer coisa que se assemelhe a REAL INTERESSE pelo outro!!!!!!!!!!!

Parecia-me impossível existirem pessoas assim, Que não conseguem ver a vida pelos olhos dos outros. Que vivem os seus problemas tão profundamente como se não existissem outros seres humanos por aqui. Que não sabem o que está a acontecer à sua volta com os seus amigos, os seus irmãos, ou outros seres significativos.

Ser auto-centrado e cego para os outros dá origem, numa grande parte das vezes, a uma ira estranha. Uma certa agressividade negativa que advém, obviamente, da falta da abertura ao outro, da falta de afecto, e até da falta de afecto negativo da parte do outro, porque os auto-centrados combatem tudo e todos. Todos os outros estão errados. Todos são "más pessoas". Eles são os sofredores. Incapazes de viver o outro, sentir na pele a história de vida do outro, incapazes de um processo profundo a que Carl Rogers chamou de EMPATIA. 

Em+Pathos.

Colocar-se plenamente no lugar do outro. Ser capaz de viver o sofrimento (Pathos) do outro.

Selfless. 

Sair de si próprio. 

Ter o prazer e a oportunidade e ver o outro, estar nos olhos dele. Sair da nossa vida, única e insignificante, ainda que seja apenas por uns breves instantes. Ser capaz de deixar o nosso eu quietinho por um bocadinho e ir para o outro.

Os auto-centrados. Os ego-centrados. Vocês sabem quem eles são. Eles estão a crescer a toda a velocidade.

Um novo tipo de egoísmo, socialmente aceite, por alguns. 

E não pensem que tem que ver com a tecnologia, a globalizaçao. Talvez tudo relação mas não direta. A tecnologização não é panaceia para explicar todos os males. Os valores, a consciência e a vida coletiva em sociedade estão cá na mesma. Diferentes.

Só colocando umas lentes diferentes conseguiremos identificar esta nova sub-espécie humana.

Tenho alguns amigos (bem, "conhecidos") que ficaram assim.

Fecharam-se ao outro. OU já era assim e eu é que não via. 

Capazes de falar horas e horas sobre os seus problemas, as pessoas que lhe fizeram muito mal, os negócio que correram mal. Pessoas que começam muitas vezes frases por "Porque eu....", "Porque eu sou assim e....", "Porque comigo....o que acontece é isto e isto". 

Talvez seja funcional e altamente bem sucedido no mundo do trabalho e no mundo do "Gerar dinheiro" porque já não têm grande consciência social. CONSCIÊNCIA. Noção clara dos impactos que as nossas ações podem causar aos outros. Perderam-na. 

E o outro, o "Contigo", não surge. Não aparece na conversa. Nem uma pontinha ínfima de interesse sobre como o outro está. Que problemas estará a viver? Em que é que eu poderia ajudá-lo? 

Porque eles não possuem espaço mental para isso. Ocuparam-se com todo o seu eu. E, logo, nunca caberá um outro eu nas suas vidas.



Sunday, December 06, 2015

O mito da paixão em ‘idade avançada’, digamos...


Quando alguém me conta que uma relação acabou porque alguém conheceu outra pessoa, lamento dizer que, de certa forma, hoje em dia, sinto um certo alívio.

Claro que os termos utilizados pelas pessoas são muitas vezes outros, não tão educados como estes, mas é verdade é simples: nós não podemos ser outra pessoa que não a que somos. E se gostamos desta pessoa que somos (e do outro), por muito (muito!) que nos custe, deixamos a outra pessoa seguir o seu caminho. 

No final, penso eu, a pessoa vai ser feliz com outra pessoa. Parto do princípio que ponderou tudo na sua decisão e eu não posso ser a Maria quando sou a Francisca. Sou fundamental e existencialmente diferente.
Sortudos os que têm fins destes. Sortudos, dentro dos tipos de fins, claro.

O pior fim é não saber bem o porquê do fim. O pior fim é o fim pela diferença de valores, de filosofia de vida. O pior fim é ser trocado por coisas e não por pessoas. Stuff. Things. Coisas. Não interessa quais. Todas. Todas as outras coisas que não são, portanto, pessoas. Dinheiro, ambição, drogas, carros, poder, estatuto, países, empregos, casas, partilhas, heranças, etc., etc., etc.

Por mais que as pessoas digam, na sua sabedoria “Fulano, ‘empregos’ há muitos, mas alguém que partilhe uma vida contigo e te aceite como tu és, não é fácil encontrar!!! Pensa bem”, as filosofias não entram facilmente na mente das pessoas (agora basta substituir a palavra empregos por qualquer outra que não seja o nome de uma pessoa, e funcionará sempre!). 

As coisas preenchem as pessoas que não se conseguem preencher por outras pessoas ou pela vida em si. 

Por outro lado, não ajuda nada a este processo dos fins, o mito que nos foi vendido (digo “nos”, mas o leitor pode não ter este mito e se é esse o caso, parabéns!) de que apaixonarmo-nos aos 30 ou aos 40 é diferente. 
É “diferente”, diz o povo. “Já não é a mesma coisa…”, dizem as pessoas, retorcendo o canto dos lábios e acrescentando muitas vezes expressões do tipo “já é mais calmo, já não há tanta emoção…somos maduros”, mas sempre com aquele tom paternalista do Settling, do ter de assentar, “as motivações são outras, já temos outra vida, queremos outras coisas”, “já não se sente aquele fogo…”, dizem os mais velhos. 

Pois, não sei que vida é que eles viveram...

Amigos, é tudo treta. Apaixonei-me depois dos trinta, mais forte e mais rápido do que sempre, no resto da minha vida. 
Mais presente, mais profundo, mais meditativo (e tantric), mais vivido, mais consciente de todas as emoções que estava a sentir, quando já nem estava a contar muito com elas. 
Apaixonei-me. Borboletas no estômago, vontade de dar presentes, fazer surpresas, agradar o outro, fazer tudo de diferente, mudar a nossa vida para o encaixar. 
Mudar o que vemos, mudar os planos, fazer outros planos. 

Porque fazia sentido. Trocar mensagens apaixonadas e sofrer todos os dias que não se está na presença do outro. Ter saudades e tentar não ser lamechas e chato como um adolescente louco de paixão. Não sei muito bem o que é estar apaixonado na adolescência. 
Aquilo não era paixão. A língua portuguesa não tem bem palavra…aquilo era infatuation. Não podia ser paixão porque não estávamos por inteiro. Não sabíamos quem éramos, o que queríamos, o que íamos ser.

Apaixonarmo-nos aos 30 ou aos 40 é simplesmente delicioso. É estar pleno e consciente de tudo o que sentimos. É abrir o jogo todo ao outro, sem medos. Porque já não os temos.
 Temos medo de perder, claro, mas o maior medo é de não o ganhar. Não ganhar o outro. Não absorvê-lo, não respeitá-lo como ser integralmente que um ser humano de 30, 40 ou 50 já é. É respeitá-lo e ele a nós, honrando-o com a honestidade total. 

É sermos verdadeiramente nós e aceitarmos verdadeiramente o outro, com toda a sua personalidade, as suas características boas e menos boas, as que se coadunam connosco e as que não, mas mesmo assim, ficar. Abrir o jogo. 

É despirmo-nos de tudo e tentar tudo.

Ver as pessoas a partir porque são incompatíveis, porque discutem todos os dias, porque não se entendem ou porque se apaixonaram por outra pessoa, é fácil. 

Ver as pessoas partirem porque nos puseram numa balança entre coisas e nós, é…tramado (para não dizer outra coisa). 

E eu já fui posta em muitas balanças, e até acho que eu própria ajudei a colocar-me lá, o que é realmente difícil. Mas esperamos sempre que as pessoas vençam.

Depois vem a cura. O Luto. É mais fácil, de alguma forma, porque já sabemos como sofrer. Já podemos ir para dentro do nosso sofrimento e experimentá-lo, para aprender, para sentir, da forma mais alerta e de olhos abertos possível, sem querer minorá-lo!, para ultrapassar. 

Já aprendemos a reconhecer quando temos de parar para não sofrer mais. Seguir o seu caminho, ainda com a paixão cá dentro, para ser vivida solitariamente, porque entretanto as “coisas” tomaram o nosso lugar. 

De uma outra perspectiva, também dói mais. Tudo bem, já não ficamos tanto tempo inocentemente na balança, mas dói muito. Dói tão intensamente como o nível de paixão vivida (e não consoante o tempo de duração da relação, ou da idade que temos, como às vezes nos tentam convencer).

E quando nestas balanças, ainda há quem tente. Ainda há quem espere pacientemente ou lute incessantemente para tomar o seu lugar na balança. Mas, na minha opinião, não vale a pena. 

Existe um tempo em que podemos passar nós a pesar mais e, portanto, naturalmente as “coisas” saem da balança. 
Mas quando a coisa está naquele lugar e mesmo que aquele lugar passe a ser nosso, mesmo que o conquistemos, seremos sempre substitutos, os segundos, os que vieram tirar ao outro o direito a “coisa” que o outro tanto desejava. 

Seremos sempre os maus. Nunca seremos suficientes. E não pode ser. Porque a única forma é ser a própria pessoa, a trilhar o seu próprio caminho e a colocar  o que achar melhor na sua balança, até perceber que as pessoas não podem ser colocadas em balanças em troca de coisas! 
Não podemos ser nós a conquistar esse lugar. Tem de ser o outro a tirar as coisas da balança porque quer. Tem sempre de ser uma escolha consciente do outro. Nunca pode ser um golpe de estado. 

Mais tarde, viremos a saber (talvez!) que o outro conseguiu tirar a “coisa” do lugar e pôr lá outra pessoa. Podemos ficar tristes porque não fomos nós ou podemos optar por ficar profundamente felizes, porque o outro conseguiu pôr um ser humano no lugar da coisa.

Por isso, apaixonem-se sempre. Em qualquer idade. Se estiverem numa relação e perderem a pessoa para outra pessoa, regozijem-se com a ideia que o outro - que nós amamos tanto- será feliz com um outro ser humano. 

Nós também encontraremos o nosso caminho. Mas nunca se deixem ser colocados num prato da balança, numa guerra impossível de ganhar com outra “coisa”: é uma luta perdida à partida.